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sexta-feira, 3 de abril de 2009

O Holocausto como exemplo

Existem acontecimentos na história que são intoleráveis por conta da covardia daqueles que os perpetuam, não interessa contra quem. A perseguição aos judeus pela Alemanha nazista é um dos mais claros desses eventos atrozes, tanto é que ganhou um nome apenas para designá-lo. A noite do terror, em que forças americanas e britânicas arrasaram Dresden com bombas blockbuster em áreas civis, é outro. O massacre de palestinos nos campos de Sabra e Chatila, também. A banda RPM nos anos 80, quem sabe.

Por isso mesmo, não consigo ler com uma boa dose de enfado e outra de "Que porra é essa?" quando vejo cidadãos aparentemente normais gritarem comparações de situações meramente patéticas com grandes crimes da humanidade. Esse é o caso do senhor Clóvis Victorio Mezzomo, brasileiro, neto de italiano, com pele branca e olhos verdes. Diz ele que é jornalista e empresário (acabei de me livrar de um tipo desses e a experiência realmente não foi boa).

O nobre senhor entrou com uma ação no Supremo Tribunal Federal (STF) por considerar que o presidente Lula fez uma afirmação racista ao dizer que a crise foi criada por gente branca e de olhos azuis, na semana passada. Até aí, tudo bem. A declaração permite essa interpretação, embora eu não entenda que isso faça do mandatário um homem racista.

O problema é a comparação feita pelo tio Mezzomo.

"A História está repleta de exemplos dramáticos e traumáticos de efeitos da discriminação. Dentre eles, citamos o holocausto sofrido pelo nobre povo judeu."

Não dá.

Fico particularmente irritado quando vejo gente usar o Holocausto como se fosse uma ida à feira de domingo. Não há defesa para quem diz que Israel tem políticas nazistas na sua relação com os palestinos. Assim como também não há para gente como o seu Mezzomo, que transforma uma afirmação bobalhona em comparação com a maior atrocidade da história recente.

Vai ler um livro, seu Mezzomo. Deixa de ser mané.

sábado, 7 de março de 2009

Lula troca vergonha por votos no Nordeste

Desde a redemocratização o Nordeste se mantém como grande fiel da balança das eleições presidenciais. Enquanto alguns candidatos centram força nos maiores colégios do Brasil - São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro -, deixam desguarnecida a região mais pobre do país, com a qual imaginam ter mais chances de obter votos sem fazer os mesmos gastos por eleitor. Os nordestinos costumam ficar ao lado do candidato para o qual apontam logo no início do ano do sufrágio. Hoje, eles apontam para José Serra.

Esse deve ser o raciocínio que leva o presidente Lula a permitir a ocupação de espaço no seu governo pelos arautos do fisiologismo do Nordeste, como José Sarney (cujo grupo governou o Maranhão por 40 anos), Renan Calheiros, Geddel Vieira Lima e até o ex-adversário mortal Fernando Collor de Mello. Dar votos a Dilma Rousseff custa caro e ele parece disposto a pagar quanto for necessário para tomar votos do tucano num terreno ainda instável e decisivo.

Alguns dirão que nenhum desses oligarcas nordestinos, que por anos vociferaram contra o presidente ex-operário, causará qualquer tipo de problema no Legislativo a um mandatário com mais de 80% de aprovação popular. Pode ser. Mas não há como encarar essa invasão consentida pelo Palácio do Planalto como uma falta de vergonha na cara do nível da que levou ao mensalão. Uma coisa é acomodar aliados num governo. Outra é entregar o governo a eles.

Lula se deu gostosamente para o PMDB. Sem o menor pudor.

Ele pode até conseguir um bom tanto de votos para Dilma na região onde nasceu e é querido ainda mais do que no resto do Brasil. Mas não terá o argumento de que a neo-petista, que não é unanimidade nem no próprio partido, é a candidata que romperá com marajás e com o pior que há na política brasileira para defender um programa de governo minimamente de esquerda. Essa imagem faz diferença para pelo menos um terço do eleitorado que não poderá preguiçosamente cravar mais um voto em Lula.

E aí, como fica esse povo todo?

Se Lula venceu graças à expectativa de mudança e o próprio Serra, conhecido nacionalmente, pouco baterá na atual administração, qual será o discurso de Dilma? Dizer que é a candidata que se dá melhor com Sarney, Renan e Collor não parece ser muito animador. Até porque essa turma toda pode aprovar a falta de vergonha do presidente para lhes dar abrigo, mas não garante fidelidade para nenhum candidato que não tenha chance real de vencer.

Falta de vergonha dá nisso.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Lula e a música de Guilherme Arantes


A música que mais odeio é cantada pelo chatíssimo Guilherme Arantes. Chama-se "Lance Legal", mas poderia ser chamada de "Ode ao Babaca". O trecho que mais me irrita é o refrão infame:

"Meu momento é agora, meu caminho é feliz/Se há uma crise lá fora não fui eu que fiz/Então viver é um lance legal/Tem que ter um certo sabor/Muita calma durante, loucuras no final"

Ou seja, dane-se o mundo todo. Eu me basto, dá licença?

Nos últimos dias eu tenho me lembrado dessa música quando ouço o presidente Lula falar sobre a crise econômica. Não que ele não tenha sido otimista desde o começo. E acho inclusive que deveria ser.

Mas já passou do ponto. Que pelo menos ficasse quieto, porque não é o otimismo dele que faz sua alta popularidade, mas sim o fato de as pessoas saberem que a origem da crise não está no Brasil.

Ao mesmo tempo elas sabem que os problemas não passaram e que vão, sim, pegar um pouco da economia real, embora o Brasil tenha boas chances de sair dessa melhor do que outros emergentes.

Sem contar que tanta positividade pode contaminar gente mais simples que pode se enfiar num crediário sem ter condição de pagar daqui alguns meses, quando o efeito vier mais pesado.

É hora de comedimento, não de euforia. Parece tão óbvio isso.

Otimismo babeta definitivamente não é um lance legal.