domingo, 31 de agosto de 2008

Oposição ainda sem rumo

Acompanhando de longe, só dá para achar graça na ameaça do presidente dos Democratas, deputado Rodrigo Maia, de pedir o impeachment do presidente Luiz Inácio Lula da Silva porque ele recebeu informes montados pela Abin com material obtido em escutas ilegais --um incidente absolutamente inaceitável.

É indiscutível a gravidade de o presidente da mais alta corte do país ter tido telefones grampeados por um órgão subordinado à Presidência, mas parece casuísmo pesado saltar de uma coisa para a outra no momento em que a oposição parece próxima de tomar uma surra nas eleições municipais.

A mais importante eleição do país, a de São Paulo, pode estar indo para as cucuias. No Rio de Janeiro a disputa é entre candidatos de partidos da base do governo. Em Belo Horizonte o PSDB teve de endossar o candidato da aliança PSB-PT sem participar oficialmente da chapa. E por aí vai...

Sem contar que eleições municipais adiantam tendências, sim.

Em 1989, quando Lula chegou ao segundo turno contra Fernando Collor, tinha o espólio da vitória de Luiza Erundina na capital paulista.

Em 1994, ele foi batido por Fernando Henrique Cardoso dois anos depois de os pleitos municipais mostrarem que o petismo não foi um herdeiro natural do fim da República de Alagoas.

Em 1996, os tucanos surfaram no governo FHC e no Plano Real. Em 2000, o PT venceu em várias cidades importantes, principalmente em São Paulo, para pouco em seguida levar Lula ao Palácio do Planalto.

Nas eleições municipais de 2004, o governo Lula se viu desgastado e perdeu boa parte do que ganhara quatro anos antes. Reelegeu-se apenas no segundo turno em 2006.

Se eu militasse na oposição, ficaria desesperado com essa análise.

Enquanto surgem as bravatas de impeachment que não se sustentam por uma mísera semana, o oficialismo se fortalece e deixa os rivais sem discurso. E não é necessariamente por administrar direito, mas também por falta de crédito e de tato da oposição, que grita impeachment como quem diz o nome do time de coração.

Quando Rodrigo Maia repete que o atual governo faz mal à democracia brasileira quando age, como nesse caso, de maneira tolerante para com práticas ilegais nele engendradas, me pergunto se o nobre deputado também não nos faz mal por ajudar a comandar uma oposição tão fraquinha e sem rumo.

E ela assim é apenas por um motivo: no fundamental, governo e oposição concordam em quase tudo. No fim das contas, Maia e os outros estão apenas se preparando para o revezamento de cargos. Ao que parece, a oposição já abriu mão da vez neste ano e em 2010.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Eu prefiro que os EUA liderem

Já na parte final da minha experiência em um país comunista, acordei na manhã de sexta-feira para assistir pela Internet ao discurso em que Barack Obama aceitou ser candidato à Casa Branca pelo Partido Democrata. Não tem como não se emocionar.

Ver um estádio cheio de gente jovem e empolgada com as possibilidades da democracia representativa, como em Denver, reforçou a minha fé de que o modelo chinês não é alternativa.

E nunca, nunca será.

Nas últimas semanas conversei com alguns americanos que se preocupam mais em fazer parte da elite intelectual global do que em arrotar como os iuessei despertam a inveja do mundo por serem tão sensacionalmente sensacionais.

Todos esses se mostraram um tanto envergonhados pelos oito anos do governo Bush e, principalmente os mais velhos, contaram que nunca foi tão difícil ser um americano vivendo no exterior.

Quando alguns deles me perguntaram sobre o que eu pensava sobre os EUA, respondi que se estivesse vivo na Segunda Guerra Mundial, preferiria a vitória deles. Se estivesse vivo no auge da Guerra Fria, preferiria a vitória deles. E se vierem a enfrentar a China, seja como for, ainda prefiro a vitória deles. Sem medo de ser feliz.

Sou pró-americano também por falta de opção.

Porque os Estados Unidos pelo menos não te executam nem te mandam para campos de trabalhos forçados se você protestar contra as atrocidades de Guantánamo e de Abu Ghraib, contra a poluição e o consumismo desmesurados por lá, contra o racismo e a intolerância religiosa por aquelas bandas e por aí vai.

E além disso, eles também são capazes de botar um negão com chances reais de conquistar a Casa Branca 40 anos após Martin Luther King dizer que tinha o sonho de um dia as pessoas serem julgadas não pela cor da pele, mas sim pela firmeza do caráter.

Uma sociedade que muda e que respeita mudanças.

Se os EUA não forem adiante com esse tipo de postura, que zela minimamente pelas nossas liberdades individuais, quem irá?

Que eles sigam adiante.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Pequim merecia só as Paraolimpíadas

O ex-presidente do Comitê Olímpico Internacional Juan Antonio Samaranch é conhecido não apenas pela atuação e pela longevidade ricardoteixerescas à frente da organização do maior evento do esporte mundial, mas também por ter sido um grande colaborador do ditador espanhol Francisco Franco --que o Diabo o guarde. É sem dúvida um homem que gosta de quem exerce sua força. Talvez por isso seja ídolo na China desde 2001, quando anunciou Pequim como sede dos Jogo$ de 2008. É um quase chinês.

Depois de ver que os chineses organizaram um evento seguro e tecnicamente bem armado, Samaranch arrotou sua antiga confiança no governo central, tadinho, tão atacado pela mídia ocidental malvada, por conta das limitações impostas aos jornalistas --atenuadas durante os Jogos-- e à realização de protestos, muitas vezes punidos com deportação para os estrangeiros e até prisão para chineses. (fora o que a gente desconhece)

O mundo, disse ele na TV estatal, viu como a China merecia receber as Olimpíadas, e como fez um evento grandioso e blá blá blá.

Eu discordo. Mas acho que Pequim e a China mereceram e provavelmente continuarão merecendo as Paraolimpíadas.

Menor atenção internacional, menos responsabilidade e organizadas em um lugar que trata bem os seus deficientes. Sinais, calçadas, cardápios, comunicações e quase tudo em que pude pensar garantem a acessibilidade de cegos, surdos, mudos, paralíticos, portadores de distúrbios mentais e botafoguenses.

As sinalizações para cegos até machucam os pés de quem anda na calçada, quase sempre tropeçando em uma infinita faixa amarela salteada. Na TV muitas vezes não deu para acompanhar 100 por cento um evento olímpico porque legendas em chinês corriam o tempo inteiro para os surdos. Quem mora perto de avenidas importantes sofre com os sinais fazendo barulho a noite inteira.

Melhor assim.

A China tem pancadas de problemas, mas me parece que trata esses caras com respeito, pelo menos na capital --nunca se sabe o que pais insatisfeitos do interior fazem com crianças que tenham necessidades especiais, mas é fato que o governo não as pune se tiverem mais um filho caso o primeiro venha com essa condição.

Na próxima vez que uma cidade chinesa se candidatar a receber os Jogos Olímpicos --sim, haverá outras tentativas e, quiçá, novo êxito-- faço essa sugestão ao sucessor do tio Samaranch. Deixem só as Paraolimpíadas por aqui. Elas serão bem-vindas e merecidas.

Mas com a outra coisa, a que surgiu na Grécia, não.

Porque nem a Espanha do Franco mereceu tanta colher de chá.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Dando uma volta com a polícia

Acordei nesta quarta-feira com um policial batendo à minha porta. Em um inglês sofrível, disse que eu precisava comparecer à delegacia para tratar do meu visto. Na verdade eu deveria ter ido no dia anterior, mas uma pizza na noite de segunda-feira me impediu de sair de casa o dia inteiro. Eu tinha 15 minutos para me ajeitar.

Fiz isso e caminhei com o guardinha, que se mostrou simpático depois de saber que eu sou do Brasil. "Furebor!", esclamou ele. Entrei no clima e falei da vitória da China no quadro geral de medalhas. Ele não entendeu pica e somou um "verrry gouda" para se repetir na conversa sobre o esporte bretão praticado pelos brasileiros.

Chegando à delegacia, o chefe dos guardinhas me recebeu. Ele é o único policial que fala inglês razoavelmente no bairro onde estou. Expliquei a situação, mostrando também que sentia muito por não ter resolvido o problema antes. Diante de outros colegas, me tratou com formalidade e pediu para eu voltar quatro horas depois.

Ainda baqueado pela pizza --comida chinesa é feita a altas temperaturas que matam micróbios e as pizzas, não--, voltei à delegacia. E o guardinha disse que por norma chinesa eu teria de ir na viatura de polícia até a imigração. Um Santana bem decrépito, ao contrário dos carros bonitos que se vê nas polícias de distritos mais cheios de gringos e endinheirados.

No caminho, o guardinha quer saber tudo sobre o Brasil. Quer saber o que eu acho sobre a China. Quer saber sobre minha namorada e sobre as mulheres brasileiras. Depois ele conta da vida dele, formado em engenharia, mas policial por causa da emoção. É o máximo que ele se permite explicar. Para não falar muito mais, ele me oferece uma garrafa de chá verde das várias que carrega na viatura. É bom para o estômago, diz ele, casado com uma artista plástica que é viciada em chá e que o ajuda a praticar inglês em casa.

Chegando à imigração, ele me pergunta se tenho dinheiro. Digo que não e começo a achar que o cara ia pedir uma propina para resolver a situação. Mas não era nada disso. Ele queria saber se eu tinha dinheiro para pagar a multa de 300 iuans para quem tem o visto expirado. O guardinha conversa com dois agentes e, zap, em três minutos está resolvida uma situação que me tomou pelo menos duas tardes inteiras, no sábado e na segunda-feira.

E eu não pago nenhuma multa.

Normalmente eu pagaria a multa e ficaria umas boas horas ali. Mas o exemplo do guardinha me lembrou de algo que um colega daqui contou: os chineses também dão jeitinho. Não com a malemolência brasileira, mas dão. No fim das contas, pessoas são pessoas. E nenhum regime repressivo consegue mudar isso.

Nem com as mais de 50 câmaras que contei naquele lugar, conseguiram barrar uma iniciativa livre.

Sorte minha.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Para correspondentes, Olimpíadas mudam pouco para imprensa na China

Maurício Savarese, especial de Pequim para o Comunique-se

Os correspondentes em Pequim dos mais importantes jornais brasileiros avaliam que a realização dos Jogos Olímpicos pela China pouco vai alterar a postura rígida do governo para com a mídia estrangeira em curto prazo, depois de dezenas de casos reportados sobre interferência estatal na cobertura jornalística durante o período do evento.

Para eles, apesar de uma relativa abertura à imprensa internacional ao longo das últimas semanas, a China manteve a grande maioria das limitações ao trabalho jornalístico sem que a organização do evento esportivo mais importante do mundo sofresse grande prejuízo.

"No curto prazo não vai mudar nada. Até porque os jornalistas que vieram tiveram basicamente os problemas de qualquer grande cobertura. No que interessa, na China real, as Olimpíadas mudaram pouco, com algum acesso a mais a sites antes proibidos. Mas o resto ficou do mesmo jeito", disse o jornalista Gilberto Scofield Jr, correspondente do diário O Globo na capital chinesa.

"Quem esteve no espaço olímpico apenas viu uma ilha da fantasia. A China real estava aqui fora e muita gente da imprensa não viu. O governo pode acabar achando que no fim das contas valeu a pena continuar as coisas como sempre fazem. Se forem mudar alguma coisa em favor de mais liberdade de imprensa, vai demorar", afirmou ele, que vive no país há quatro anos.

Em sua segunda passagem pela China, a jornalista Cláudia Trevisan, correspondente do diário O Estado de S.Paulo, avalia que a China pode fazer um movimento parecido com o da cobertura do terremoto em Sichuan, em maio deste ano, no qual morreram quase 90 mil pessoas, segundo dados extra-oficiais.

"Primeiro tivemos um momento de mais liberdade, no qual o Partido Comunista queria mostrar que estava dando uma resposta rápida ao desastre. Depois, quando fomos buscar as histórias das escolas mal construídas que desabaram e mataram centenas de crianças, começamos a enfrentar problemas. Eles fazem esses movimentos de abertura e fechamento com alguma freqüência", afirma.

Para ela, o sucesso dos Jogos no país ajuda a legitimar o regime comunista e pode tornar ainda mais demorado um processo de maior abertura da China para a mídia estrangeira.

"Eles muitas vezes invocam a história milenar do país para justificar o tempo com que algumas decisões são tomadas. Eles levaram tempo para que os jornalistas estrangeiros tivessem um pouco mais de possibilidade de entrevistar pessoas do campo, por exemplo. Antes era só com autorização expressa. Talvez as Olimpíadas façam com que isso se mantenha, mas ainda é difícil saber como o governo, mais popular do que nunca, vai lidar com isso."

Para o correspondente da Folha de S.Paulo em Pequim, Raul Juste Lores, a cobertura dos Jogos foi positiva para a China, apesar das reportagens mais negativas para o país na mídia ocidental. E exatamente por isso, o país comunista pode manter restrições como intimidação de fontes e destruição de material jornalístico e tolerar a violência de paramilitares contra repórteres que estejam em alguma cobertura que contrarie os interesses do Politburo.

"Das duas uma: ou eles vão pensar que a mídia internacional não morde, que pode vir aqui e não incomodar tanto, ou eles resolvem manter exatamente como está, já que puderam realizar um evento internacional sem terem de mudar muita coisa no trato", disse ele, que está na capital chinesa desde o início do ano.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Fora da ilha da fantasia

Para quem cobriu os Jogos Olímpicos no Green, Pequim é um sonho de lugar, bem organizado, prestativo e merecedor de todos os aplausos pelo sucesso de público que conduziu entre 8 e 24 de agosto. Para quem está fora e fez uma cobertura alternativa do maior evento do esporte mundial, a capital chinesa é apenas onde você toma na cabeça sem parar, tendo sua liberdade vigiada por espiões em todo lugar ou sendo barrado pela estúpida e comunista burocracia local, sem nenhuma regra clara.

Quando o tio Jacques Rogge, presidente do Comitê Olímpico Internacional, seguiu a tradição de decretar as Olimpíadas de Pequim como as melhores da história, me lembrei de como foi gostoso andar pelas ruas da cidade recheadas de supostos voluntários vinculados a várias empresas. Na verdade, eles eram observadores e alguns admitiram acompanhar os estrangeiros nas ruas para garantir sua segurança durante a estada na sede dos Jogos.

Ah, claro, segurança. Obrigado, voluntários!

Lembrei também do perrengue que outros conhecidos tiveram antes e depois de agosto para renovar uma porcaria de visto por alguns dias. Uns pagaram multa, outros tiveram a saída acelerada e alguns rumaram a outras cidades durante os Jogos. Agora sou eu quem precisaria renovar o visto, mas o governo chinês quer que me dane.

Minha volta está marcada para o dia 5 e meu visto --de turista-- venceu no sábado. Eles dão dez dias de lambuja, mas meu bilhete conta 13 dias depois de expirado o visto. Sinal de que vou receber a visita de policiais em casa dizendo que tenho prazo para deixar a China e que, possivelmente, pague uma multa.

Muito mais fácil seria renovar a porcaria, não?

Não aqui.

No sábado fui à imigração e me disseram que eu precisaria abrir uma conta chinesa e fazer um depósito de 100 dólares para cada dia que ficasse aqui até o meu vôo. Eles seguram essa grana para comprovar que você tem meios de ficar aqui e dias depois devolvem, provavelmente depois de fazer a grana girar. Sem condição de fazer isso, mandaram eu voltar na segunda-feira.

Fui ao banco onde tenho conta bancária, o HSBC, cujo nome quer dizer Hong Kong Shanghai Banking Corporation, mas apesar de ser uma empresa chinesa com presença internacional os figuras não podem me dar um documento que comprove que tenho a droga do dinheiro para ansiosamente esperar o avião que me tirará daqui.

Resolvo voltar à imigração para ver se depois do fim dos Jogos se esquecem dessa regra idiota do depósito --que costumava ser aplicada para a segunda renovação, e não para algo simples como o meu caso. Chegando lá a atendente não fala nada sobre depósito. Mas pede que eu atualize um registro na polícia do bairro onde estou para me dar autorização para ficar os dias a mais.

Chego à delegacia, 40 minutos depois, e a escrivã não fala pica de inglês. Meu amigo Victor, fluente em chinês, conversa com a tia. Ela diz que não pode atualizar o meu documento se não tiver o visto. O mesmo visto que me foi negado pela imigração, que hora antes disse que para eu recebê-lo preciso de atualização do cadastro da polícia.

Viram que coisa linda?

A ajuda que ganhei foram 30 minutos de espera e um pedaço de papel com um pedido --em chinês-- para eu ir a um lugar que desconheço na manhã de terça-feira onde resolveriam meu problema. A tia, no entanto, não soube dizer se eu precisaria pagar para isso. Ah, claro. Resolver o meu problema.

Faltei e cá estou esperando a polícia bater na porta. Pelo menos um dos guardas fala inglês. Esse é o mundo de quem não tem credencial.

Tudo bem, é do jogo. Fui eu quem decidiu vir, mesmo sem ajuda.

Mas se alguém vier me falar de como o comunismo é bacana quando eu voltar, já aviso que vou dar porrada. Não dá para ter bom senso com quem defende ditadura que vigia e cria regras vagas só para pegar no pé de estrangeiro que aparece aqui.

Já chamo minha passagem de volta de "Passaporte da Alegria".

domingo, 24 de agosto de 2008

"Come on, it's the Olympics!"

Esse foi o mote da minha última noite de Olimpíadas de Pequim, fornecido por um ex-atleta americano. Estavamos eu, ele e outras dezenas de pessoas tentando assistir à cerimônia de encerramento dos Jogos no telão gigante de um hotel sete estrelas que fica ao lado do Cubo de Água. Sentados na calçada, sem impor nenhum risco de segurança. Apenas querendo aproveitar mais a experiência de conversar com gente do mundo todo.

Eis que pouco depois dos primeiros fogos de artifício surgem algumas dezenas de políciais para remover a tigrada do lugar. Ninguém se conformou. Vários chineses batem-boca com os home, que não querem nem saber de vagabundagem olímpica. Todo mundo circulando. Menos o americano, um negão de alguma idade, com trancinhas rasta tingidas de branco e sorriso fácil.

Surge o primeiro "Come on, it's the Olympics!". Os policiais parecem entender o que ele quer dizer. Uns olham para baixo e continuam afastando o povaréu. E o americano, que me disse se chamar Pereira --mãe portuguesa--, não se mexe. Os home insistem, mas Pereira nem dá bola. It's the Olympics e em outros Jogos a que já foi, ele viu a cerimônia de encerramento do lado de fora do estádio.

Ele me contou que esteve em todas elas desde 1972, quando teria competido na equipe de atletismo do revezamento 4 x 100 dos Estados Unidos. Me mostra a credencial de treinador e fuzila: os Jogos de Pequim foram os piores em que ele esteve.

"Deve ter sido bom para quem está lá dentro, mas para mim foi péssimo. É tudo de plástico. Onde está a humanidade do maior show do mundo? Não teve humanidade de verdade nos Jogos de Pequim. Não tem espaço para todo mundo, só para quem tem ingresso. Eles não entendem nada do espírito olímpico neste país", diz ele, ainda parado e com policiais insistindo para ele tomar o rumo de casa.

Enquanto eu penso no que diz o velho Pereira, chegam três chinesas esbaforidas. Uma menina, a mãe e a avó. Os polciais dizem a elas que não podem seguir ali para ver a cerimônia de abertura. A mãe começa a bater boca com o chefe dos guardas e o clima fica tenso. Depois de dois minutos, a mulher rompe em choro.

A filha a acompanha e todos, chineses e estrangeiros, civis e policiais, respeitam. Mas a decisão vem de cima e já está tomada.

Um democrático "pra fora, cambada".

Tudo que eu consigo fazer é esperar a senhora terminar de chorar e dar um tapinha camarada nas costas dela, já sem nenhuma vontade de ver a tal cerimônia.

Ficou ainda mais melancólico enquanto eu andava para mais longe --o americano aparentemente ficou ali até cansar os policiais, que não afastaram ninguém à força. Eu ia passando pelas ruas e via moleques correndo para perto do estádio para assistir no telão e moças vestindo suas melhores roupas para o evento histórico.

Parei em um bar para assitir à cena e minutos depois que essas pessoas passavam, voltavam, cabisbaixas ou em silêncio.

Nada daquilo é para elas.

Lembrei dos relatos sobre o clima alegre de outras Olimpíadas. Gente nas ruas o tempo todo, fogos de artifício, emoção genuina e liberdade. Em Pequim, vi muito pouco disso.

Adoro os Jogos Olímpicos desde os sete anos de idade. E, pela primeira vez em uma cidade sede, nunca vi tão pouco do evento esportivo que mais gosto. Na TV só deu para ver atleta chinês. Nos ginásios, conseguir ingresso era um inferno. E no último dia, o governo não permitiu às pessoas sequer assistir à porcaria de cerimônia perto do estádio Olímpico. Proibiu até o telão.

Poderia ter sido tão simples e belo. Poderia ter sido mais humano. Porque, afinal das contas, são as Olimpíadas, que reúnem quase todos os países do mundo apenas de quatro em quatro anos.

Pena que a China não sabia. Vou ter de esperar até 2012.