quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Que Obama não se engane

Tudo muito bem, tudo muito bom. É justo que pouco mais da metade dos estadunidenses quisesse dar um bico no presidente que produziu um dos maiores fracassos diplomáticos da história - no dia 12 de setembro de 2001 a manchete do principal jornal francês era "Somos todos americanos" e aquele apoio todo, visível nos cinco continentes após os ataques aos EUA, foi jogado na lata do lixo.

É compreensível que colocassem na Casa Branca as antípodas de George W. Bush, o presidente da crise econômica e da indiferença com o multilateralismo. É notável que o candidato do partido republicano, vítima da campanha negativa de Bush nas primárias de 2000, tenha se distanciado tanto do atual governo americano.

É justificável toda a emoção da comunidade negra dos EUA, que ajudou a eleger um dos seus para o cargo mais poderoso do mundo depois de décadas de segregação racial, tanto por medidas declaradas como por regras sociais arcaicas que ainda hoje são aceitas em parte da chamada América rural.

É notório que Barack Obama, além de todo o contexto, era um bom candidato, que cometeu poucos erros em uma eleição apertada para ele desde o início. Tão bom candidato era que movimentou uma das campanhas mais revolucionárias da história moderna (não sem uma bela ajuda da imprensa em um país onde a mídia exerce um poder ainda mais poderoso do que nestas bandas).

Mas é bom que o presidente-eleito dos EUA tenha em mente o tamanho da pressão que terá nas costas agora - afinal, além de tudo, ganhou votos em Estados que há décadas não elegia um democrata, como Indiana e Virgínia. Obama não tem mais um país tão dividido como nos últimos oito anos. O discurso do adversário John McCain admitindo a derrota é o maior exemplo disso.



Nenhuma semelhança com o clima de inconformidade dos democratas com as vitórias de Bush, sendo a primeira muito nebulosa e a segunda, com vantagem quase mínima.

McCain foi apenas elegante e resignado. Entendeu o momento.

Mais do que a guerra, a crise econômica une povos que antes pareciam inconciliáveis. Por isso também o mundo está em lua-de-mel com Obama. A oportunidade de superar as divisões americanas, que muitas vezes se repetem em outros países, está à vista. Exatamente por essa razão o presidente-eleito não pode pensar que tem carta branca por conta da comoção que gerou sua vitória.

Ela não se basta.

Vitórias avassaladoras são facas de dois gumes mais do que os triunfos apertados. Depois de passar a emoção, o que sobra é quanto da sua palavra Obama poderá cumprir. As suas escolhas nas próximas semanas vão indicar muito disso. O mundo pode estar apaixonado por Obama, mas gosta mais de si mesmo. O negão nem tomou posse, é verdade, mas o relógio para ele já está andando.

É bom que ele comece a correr. Bem rápido.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

A simbologia de Obama e de Lula

É de se suspeitar que um brasileiro queira comparar o candidato democrata à Casa Branca, Barack Obama, com o presidente Lula, mas o jeito deles de fazer política não é lá tão distante assim. Já escrevi aqui que a simbologia de Obama é mais forte do que a de Lula, mas não expliquei direito o que penso. Como as eleições dos EUA são semana que vem e a vitória do negão é mais provável, vamos lá. O raciocínio tem a sociedade do amigo Caio Quero, mais esquerdista do que eu, é necessário dizer:

Obama é o símbolo dos Estados Unidos que dão certo, enquanto Lula é um brasileiro símbolo que deu certo. Obama é a personificação das políticas sociais, incluindo a afirmativa, que permitem às minorias ocupar um espaço verdadeiro na democracia americana, com chance de ocupar o poder. É o candidato que precisou de oportunidades reais para chegar longe e que as obteve com a ajuda do Estado.

Lula é a personificação de um brasileiro que encarna em si o fodão e o fudido ao mesmo tempo, como diz o seu marqueteiro, João Santana. Ele não chegou ao Palácio do Planalto porque o Brasil deu mole. Teve de superar cada obstáculo para ficar perto da tomada de decisão. O Estado não o ajudou em nada antes da eleição. Toda a sua trajetória tem como base a luta por esse tipo de benefício.

Na esfera partidária, Obama tem outra diferença com Lula. O senador pende mais para uma espécie de Luiza Erundina, que tomou de Plínio de Arruda Sampaio a candidatura petista à prefeitura de São Paulo, em 1988, porque mexeu com as bases, não com a cúpula. Lula sempre esteve acima do bem e do mal no PT. E mudou a esquerda brasileira sem que o partido passasse por um processo de rediscussão pré-poder. Foi diferente na Alemanha, na Inglaterra, na Itália, na Espanha, onde vocês quiserem.

Qual dos dois é melhor nessa simbologia? Obama parece mais completo, mas nada garante que ele saberá transformar todo esse capital político em ações positivas para conter a crise econômica, vencer duas guerras no exterior e unir um país tão fracionado. Um país que ele ajuda a fracionar na campanha contra John McCain.

Apesar dos pesares, talvez o rapaz devesse pedir uns conselhos pro tio Lula. Na hora de governar, a simbologia vai pro vinagre.

P.S> Deixo duas dicas de vídeos: as peças finais de propaganda eleitoral de Obama e de Lula, favoritos nas pesquisas dias antes da eleição. Ali já se vê que a simbologia conta menos do que a necessidade de um tom presidencial.

Neste vídeo de 27 minutos, transmitido num monte de canais de TV na noite de quarta-feira. Obama até faz referência ao que representa (afinal, é difícil encher meia hora de programa), mas isso é o que menos importa ali. As propostas ganham o centro.



E aqui o melhor vídeo de propaganda eleitoral da história recente do Brasil. O slogan da mudança não serve como simbologia de Lula per se. Nenhuma palavra sobre operário, nordestino, sofrido, esquerdista, oposição ou seja o que for. É pra todo mundo.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Um informe e um pedido

Pousei em São Paulo, vindo de Paris, no dia 19 de setembro. Voltei ao trabalho no dia 22. E desde então, tive dois dias de descanso (um sábado e um domingo). Tudo porque além de cobrir as eleições municipais, aceitei uma proposta para mudar de emprego depois de pouco mais de quatro anos. E tive de aceitar no meio da campanha, o que não raro implicou em jornadas de trabalho de até 17 horas.

Além de repórter da agência Reuters, cobrindo os candidatos nas regiões mais afastadas da cidade (o que é sempre mais interessante), trabalhei como editor-chefe da edição brasileira da revista de futebol inglesa FourFourTwo, cuja primeira edição está chegando às bancas das maiores capitais nesta semana.

Agora é esse o meu único trabalho. E até a revista vender bem, a equipe da revista sou eu. E uma diretora de arte. E um revisor.

Por favor, me ajuda. Eu podia estar matando, eu podia estar roubando, mas estou só pedindo para vocês comprarem uma revistinha por sete real. A gente não temos verba de publicidade.

Que nossosenhorJesusCristo te abençoa.

domingo, 26 de outubro de 2008

Venceu a política tradicional

Nas eleições que minimamente importam neste país, ficou claro que venceu quem soube usar a política tradicional: formação de alianças, exploração do tempo de TV e conservadorismo em relação aos governos federal e estadual. Por mais se exalte o prefeito-eleito de São Paulo como novidade ou que se critique o colega dele no Rio de Janeiro, por exemplo, o fato é que os eleitores demonstraram não estar interessados em muita mudança em relação ao que está posto.

Kassab se viabilizou pela disposição de Serra de rachar o PSDB paulistano, por medo de perdê-lo para um Geraldo Alckmin cada vez mais inclinado às Minas Gerais, e pela capacidade de se acertar com o PMDB de Orestes Quércia, que pode ser oco, mas oferece tempo de TV e capilaridade nos bairros. Nada mais tradicional.

Eduardo "Troca-Troca" Paes (mudou de partido sete vezes) é um tradicionalista por definição. Sabe medir os ventos e ajustá-los, com uma assustadora flexibilidade ideológica. Elegeu-se rachando o eleitorado e colocando-se ao lado de um presidente popular que já acusou dos piores crimes. Mas na política segue valendo o ditado: quem não sabe virar a página, não merece ler o livro. Paes sabe.

Em Belo Horizonte, há quem tente diminuir a vitória de Márcio Lacerda, poste do governador Aécio Neves e do prefeito Fernando Pimentel, arquitetos da aliança entre os dois partidos que polarizam as eleições nacionais. O peemedebista Leonardo Quintão veio com o papo de que o eleitor tinha dado seu grito de independência, mesmo depois de ele ser derrotado. Tudo conversa mole. Perdeu para um candidato fabricado em laboratório. O eleitorado comprou.

Salvador, Porto Alegre, Recife, Fortaleza, Goiânia, Curitiba, Belo Horizonte. Onde é que alguém contrariou essa lógica da tradição? Diante de candidatos representantes desse tipo de política, o máximo os rebeldes conseguiram foi chegar ao segundo turno. Raramente fizeram mais que isso - talvez o exemplo mais claro seja Santo André, onde o petista Vanderlei Siraque conseguiu a alckminiana façanha de terminar o segundo turno com menos votos do que obteve no primeiro. Que beleza.

Até em São Luís, quem diria?, o tradicionalismo venceu por meio de um candidato da oposição. O eleito, João Castelo (PSDB), é adversário da família Sarney, da qual foi cria. E o comunista Flávio Dino, apoiado pelo clã, perdeu. O governo estadual está nas mãos de Jackson Lago (PDT), que alijou o ex-presidente do poder no Maranhão pela primeira vez em 40 anos, em 2006.

A tradição venceu, de lavada. E venceu sem um candidato se eleger batendo no presidente da República cuja popularidade bate nos 80 por cento. Não acho que o eleitor brasileiro seja conservador por natureza, mas que desta vez ele foi bastante cauteloso e atento ao "continuaremos o que está bom", ah, isso ele está.

sábado, 25 de outubro de 2008

Nada além da obrigação

Não dá para negar: a campanha do Corinthians na Série B pouco teve de comovente. O time, ao contrário do que alguns críticos previram no início do ano, sobrou na competição e garantiu o acesso à elite do futebol brasileiro, de onde nunca deveria ter saído, com várias rodadas de antecedência. Os jogadores e a diretoria não fizeram nada além da obrigação, já que até clubes menos portentosos como Atlético Mineiro e Botafogo retornaram um ano depois de terem caído. Isso tudo é fato.

Assim como é fato que o goleiro Felipe não fez nada além da sua obrigação ao pular o alambrado e se misturar a milhares de corintianos aliviados pelo retorno à elite do Brasileirão. Pode parecer algo muito fora do comum para quem não torce pelo Alvinegro, mas quem faz parte da torcida mais fiel do Brasil sabe que belas demonstrações como aquela são corriqueiras na história do Coringão. Felipe apenas seguiu uma antiga tradição do clube. Emocionar era com o Corinthians. E continua sendo.

No ano passado, assisti ao Corinthians cair para a segunda divisão enquanto trabalhava no plantão do fim de semana. Havia eleições na Rússia, referendo na Venezuela e três TVs ligadas nos jogos que decretariam o destino do meu time de coração no ano seguinte. Assisti aos três enquanto escrevia. Qualquer corintiano faria o mesmo. Não era mais do que a minha obrigação.

Perdemos. Senti o baque por dois minutos. Pensei em como neste ano a fórmula se repetiria: derrotas aumentadas e vitórias menosprezadas. É assim que acontece na periferia desde antes de 1910, ano em que surgiu o primeiro clube no Brasil, salvo engano, a ter um negro entre os seus dirigentes fundadores.

Depois de quase 11 meses de incômodo - nunca foi calvário, porque a certeza da volta à primeira divisão existe há meses -, assisti pela TV ao Corinthians cumprir sua obrigação.

Tudo bem, não foi nada demais voltar ao lugar devido. Mas foi bom demais reviver o heroísmo das pequenas coisas. Aquelas que um torcedor mais identificado com os troféus do que com o futebol não entende. Aquelas que só o Corinthians desperta em tanta gente.

Nada além da obrigação de quem é tão diferente dos outros.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Um exemplo de baixaria

Ainda em referência ao que vale e o que não vale na política - sempre de acordo com a minha opinião: não vejo problema em mexer com a vida pessoal do adversário político quando o limite da verdade é respeitado. Por isso que se diz que os eleitos têm vida pública. Supostamente para servir ao público.

Mas é muito baixo envolver em uma discussão política pessoas que não pediram para entrar nela. Que não disputam cargo público.

Eis aqui um exemplo.



É por isso que eu bebo.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Sobre política suja

Sou bastante mais liberal do que muita gente em relação ao que é jogo sujo ou não na política. Claro, respeito a opinião de todos, não me julgo mais esperto nem mais ingênuo do que ninguém. Mas vou deixar aqui uma posição mais clara sobre o que pode valer e o que não vale - sempre segundo minha opinião.

Eu acho que o limite da política é a verdade. Um político que conta mentiras, faz jogo sujo. Já inventaram que a campanha dos cinco dedos do FHC em 1994 servia como alusão ao dedo a menos de Lula. Isso é ignorância ou mentira. O gesto servia apenas para reverenciar Tancredo Neves. E nada mais.

Assim como inventaram de dar camisas do PT a sequestradores do empresário Abílio Diniz. Uma armação escrota, desmascarada apenas anos depois. Mentira deslavada.

Quando não é mentira, torna-se opção. E digo a razão.

Ninguém espera que os políticos digam a verdade o tempo todo. Ninguém. Eles estão autorizados a serem, digamos, ambíguos, porque a política nunca foi feita apenas da verdade. E isso qualquer sociólogo mais ou menos já disse muitas vezes.

Política é instrumentalização.

Nunca li Kant na vida, mas já ouvi muita gente falar que o filósofo defende que nunca devemos usar os outros para fins que beneficiam apenas a nós mesmos. Mas a política cabe nesse tipo de ética?

Na minha visão, não.

Portanto, se alguém utiliza seja o que for contra um rival e essa ferramenta não está distante da verdade, não vejo como falta de ética. Pode ser uma opção mal ou bem utilizada, que sempre resvala nas condições políticas e sociais.

Em suma, política suja é inventar e mentir.

O resto, é escolha, bem ou mal feita.