sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Retificando e andando

Já que o colega Ricardo Noblat não retifica o erro, faço isso por ele: ao contrário do que informou o seu blog, Gilberto Kassab não ganhou um monte de pontos nas pesquisas após a gritaria a respeito da propaganda da rival Marta Suplicy. As projeções extra-oficiais do blog do Noblat apontavam para esse cenário, mas lamentavelmente os eleitores não corroboraram sua tese. Que pena.

Kassab segue rumo à reeleição, sim, com tranquilidade. Mas ficou claro que o povo de São Paulo não deu a mínima para a polêmica da propaganda da petista. Só serviu para consolidar votos já consolidados. A fatura está liquidada. Nunca houve virada em segundo turno na eleição paulistana e não haverá agora.

Desde que o 2o turno se configurou, os paulistanos já sabem em quem vão votar. E o mesmo se aplica a várias outras capitais onde haverá eleição no dia 26. A única grande exceção é o Rio de Janeiro.

Talvez alguns jornalistas tenham sido mais sensíveis à propaganda de Marta e acreditaram que ela despencaria nas pesquisas porque não são casados nem têm filhos. Estou na mesma condição, provavelmente por motivos diferentes, mas respeito a opção que fazem. Inclusive a de ficarem bem histéricas.

José Serra e as polícias

O governador paulista não deveria ter denunciado um suposto uso eleitoral para a greve dos policiais civis do estado - a troco de quê, se o seu candidato vai sucedê-lo na prefeitura de São Paulo?

Ele também foi pouco hábil por não ter tido comando para aplacar as reclamações dos grevistas e ajudar a resolver o impasse. Não explicou nada e não disse palavra sobre o que pretende fazer para acalmar as tensões entre as polícias militar e civil.

Mas certamente agiu como deveria ao mandar os militares para cima dos revoltosos que foram ao Palácio dos Bandeirantes para tornar ainda mais públicas as queixas, sejam elas justas ou não.

Policiais civis têm permissão para andar com arma. E armados foram eles até a sede do governo, numa clara afronta, cobrando ainda que os colegas militares os acompanhassem no protesto. A recepção que tiveram foi a que mereceram.

Até porque se eles tivessem chegado às grades do palácio sem resistência, o governador passaria a impressão de ser frouxo. E foi por uma situação assim que André Franco Montoro ganhou pecha de bundão quando ocupou o cargo. Perdeu o comando das polícias, foi desafiado e vergou. Polícia é a única coisa que os paulistas sabem que realmente tem a ver com o governo estadual e é o maior ponto de pressão para os governantes daqui, sempre presidenciáveis só por ocupar o cargo na região mais rica do país.

Serra, ex-secretário de Montoro, não cometeu o mesmo erro. Quem quer porque quer ser presidente da República não fica com coração mole nesse tipo de situação. E apela até ao programa do Datena para justificar a necessária truculência, ainda que não convoque uma coletiva para explicar o assunto com a devida seriedade.

Mas o que ele pensa em fazer para resolver o impasse?

O governador não parece saber.

Por mais que impedir a chegada dos manifestantes tenha sido justo, nada disse Serra para explicar como o estado de São Paulo, pela primeira vez na sua história, viu um conflito desse tipo.

Por isso, ou Serra aprende a tratar direito com os policiais ou vai ver sua cadeira balançar bastante até 2010. Não adianta ganhar a prefeitura de São Paulo se perder o comando das polícias.

Não mesmo.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Marta já mira Kassab como líder do ex-PFL

Depois do 1o debate apenas entre o prefeito-candidato Gilberto Kassab (DEM) e Marta Suplicy (PT), dois importantes momentos foram ignorados -ou substituídos- pela imprensa. Ambos vieram da boca da petista, como não podia deixar de ser, já que é ela quem tem de reverter desvantagem, não Kassab.

O primeiro foi quando Marta mostrou um documento perguntando sobre uma decisão do prefeito de barrar licença maternidade por seis meses. Kassab se enrolou todo e explicou o veto como se fosse uma questão burocrática, tanto que reapresentou o mesmo texto com pequenas alterações no ano eleitoral.

A petista leu o texto do veto do prefeito, no qual ele questiona o mérito da licença de seis meses, uma vez que, segundo ele não há indícios científicos de que ele seja necessário.

(Durante o debate, o blog do jornalista Ricardo Noblat postou o trecho de vídeo com a enrolada de Kassab. Estranhamente, horas depois o post tinha desaparecido. Não sei qual foi o motivo.)

A resposta do prefeito-candidato foi tão ruim que ele se perdeu na tréplica, achando que era hora de fazer pergunta, e não de tentar rebater o motivo. Perdeu os dois primeiros blocos do programa.

O segundo momento importante foi quando Marta afirmou com todas as letras que Kassab será o líder que restou do ex-PFL, visto que o partido foi o que mais perdeu nas eleições. A petista, ao que parece, sabe que não vai vencer, quer apenas diminuir a desvantagem em relação a Kassab e fazer com que haja mais em torno do prefeito-candidato do que a aura de bom moço.

Em um debate com pico de 9 pontos no Ibope, nada absolutamente sensacional, vejamos os acontecimentos dos próximos dias para saber como as coisas evoluíram. Até porque além do debate, conforme eu previa, entrou em pauta a sexualidade de Kassab.

Até que demorou.

A campanha da petista Marta Suplicy jogou uma frase ao vento e a imprensa, que não sabia como discutir o assunto e possivelmente nem sequer o faria até o fim da disputa, embarcou. Embarcou com um tom de indignação com toda a cara de ópera bufa.

Pelo que me lembro, Luiza Erundina cansou de sofrer com insinuações de ser lésbica e não me recordo, talvez pela pouca idade, de uma reação igualmente indignada. Ao contrário: o tom de chacota malufista reverberava por aqui e por ali.

Marta Suplicy possivelmente tenha respondido mais sobre seu estilo de vestir do que sobre qualquer ação que desenvolveu quando prefeita. Então qual é o problema para os conservadores eleitores de São Paulo se deparar com essa questão sobre Kassab?

A questão é que mulher não pode fazer o que quiser e homem, pode? É esse o pano de fundo. Não se condena ninguém pelas escolhas pessoais que faz, mas utilizar termos como "paraíba-masculina" e "dona Marta", em referência a dondoca, me parece ainda mais pornográfico e apelativo. Ou será que a imprensa não tem memória?

Seja como for, mesmo com a provável vitória em São Paulo, Kassab finalmente descobriu que participar do cenário político nacional tem custo -e é custo pessoal sim, senhor. Ou será que ele esperava ganhar projeção, ser o mais poderoso político de um partido importante sem nenhum sacrifício?

P.S.> Lembra o amigo Fernando Vives que em um dos debates da disputa para a prefeitura de São Paulo em 2000, o jornalista Fernando Rodrigues perguntou a Marta durante debate na TV Bandeirantes: "A senhora já traiu o seu marido?" A petista reagiu bastante irritada, como de costume, mas o estrago já estava feito.

Nos dias anteriores, o adversário Paulo Maluf cansou de dar entrevistas com insinuações e piadinhas sobre isso. A indignação da imprensa foi tão grande que eu nem lembrava desse episódio.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Uma chance para o Rio discutir

São Paulo vai voltar aos braços da direita mais direitosa. Salvador vai superando o carlismo. Fortaleza começa a abandonar Ciro Gomes e Tasso Jereissatti. Belo Horizonte discute se vale ou não eleger um poste só porque ele tem amizade com o prefeito e com o governador. Porto Alegre segue dividida no seu Gre-Nal político entre PMDB e PT. E o que será que será do Rio de Janeiro?

Não sei dizer.

Eduardo Paes é do PMDB. Mas também passou pelo PSDB, que o alçou à condição de menino da Globo na CPI dos Correios, e pelo DEM, por afinidade política com o prefeito César Maia. Meu Deus, o que é César Maia? Nem ele mesmo deve saber.

Pois bem. O adversário dele é Fernando Gabeira, revolucionário que, segundo um ex-colega de guerrilha, era mais eficiente pedindo pizzas e fumando maconha do que pensando no que fazer para libertar o Brasil da ditadura. O mesmo Gabeira que foi do PT e há três anos flerta com o PSDB.

O que muda com a eleição de um desses dois? Paes é mais próximo do governador Sérgio Cabral. E se for eleito, ficará mais próximo do presidente Lula, cujo governo cansou de chutar em sua arrebatadora passagem pela Câmara dos Deputados.

Mas por que seria diferente se o vencedor for Gabeira? Ele também bateu sem cansar no governo Lula e, se eleito, cairá gostosamente no colo do Palácio do Planalto. Afinal, nenhum prefeito administra sem ajuda do governador e do presidente.

Então qual é a diferença? O que eles mostraram que farão de diferente de César Maia? Não moro no Rio, mas dá pra saber: nadinha. Nada que mereça ser chamado de algo.

Para a sucessão presidencial de 2010, tanto faz. Mas os candidatos poderiam ao menos se dar uma chance para discutir política. Política para a cidade, e não discurso udenista para a zona sul contra discurso populista para o povão.

Em São Paulo, cidade da única eleição municipal que realmente importa para o país, dá para entender parte do clima anti-Marta. Ela faz política e representa idéias, com as quais as pessoas concordam ou não (apesar dos machistas e das pudicas que a detestam porque ela se separou do panguão do senador Eduardo Suplicy).

Mas o que pensa Eduardo Paes sobre política? Dane-se que ele é amigo do governador. O que ele acha? Não sei quem saiba responder. E o rapaz já passou por sete partidos, já deveríamos saber o que ele pensa. Ou será que ele também não sabe?

E Gabeira? Tem mais alguma coisa além do discurso udenista-ex-petista pela ética e pela moralidade ou tem algo a oferecer além das perspectivas de fazer o Bolsa Tanga de Crochê?

Tentei saber, mas não consegui.

O último político do Rio que foi levado a sério é Leonel Brizola, um gaúcho. Antes dele, talvez tenha sido Carlos Lacerda, que hoje se sentiria à vontade no Democratas fazendo campanha por Jorge Bornhausen presidente. Alguém consegue ver o Rio muito diferente com Paes ou com Gabeira? Sinceramente, não consigo.

O segundo turno carioca pode ser ainda ser uma boa chance para os candidatos do Rio fazerem política. Já passou da hora de simpatia vencer eleição na cidade que tem o cenário natural mais lindo do mundo. Até porque votar por simpatia é coisa para caipira paulista.

sábado, 4 de outubro de 2008

Eu ouvi, ninguém me contou

Na sexta-feira, antevéspera das eleições municipais, cobri a vistoria do prefeito-candidato Gilberto Kassab ao Parque do Povo, construído na popular área nobre do Itaim Bibi, zona sul de São Paulo.

Durante a caminhada, fui andando a esmo até que me vi caminhando lado-a-lado com um grão membro da administração DEM-PSDB, que conversava com alguns subprefeitos. E ele, que ao chegar conversou comigo e com outros colegas, disse aos companheiros de campanha, obviamente sem notar a minha presença:

"Está tudo caminhando para o nosso lado, a imprensa toda está a nosso favor", disse ele, que comentou também sobre a beleza do Museu do Futebol, recém-inaugurado.

Não publiquei o nome dele nem a declaração no texto que escrevi para o lugar onde trabalho porque não tenho a gravação. Não que seja crime dizer isso, mas vindo de quem veio serviria para referendar o óbvio não-lulante.

Nunca fui petista nem tucano, muito pelo contrário, mas não tem como não ver a falta de equilíbro da imprensa na cobertura das eleições paulistanas --as únicas que realmente interessam neste país, porque são as únicas que têm caráter nacional.

Para quem discorda da minha crítica, já exposta antes neste mesmo espaço, sugiro a leitura da capa do caderno DNA Paulistano publicado pela Folha de S.Paulo na véspera da eleição.

É absolutamente didático.

Há três colunas horizontais com três fotos para cada um dos que, segundo as pesquisas de intenção de voto, são os primeiros colocados na disputa.

Na primeira coluna aparece uma série com a petista Marta Suplicy acima da frase "O que eles propõem..."

Na segunda está Kassab. E entre a série de fotos dele e a do rival Geraldo Alckmin, o pessoal lê "... o que a cidade quer".

Dada a amizade entre Kassab e o governador José Serra e deste com a direção do jornal mais importante do país, me pergunto se não tem algo de verdade na piada que diz que a Folha vai começar a acompanhar o padrão do maior diário italiano.

E trocar de nome para Corriere dello Serra.

De fato, seria mais honesto.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Lewis Hamilton, o idiota

"Sei que sou tão bom quanto Senna foi", disse ele, maior campeão da história da Fórmula 1 e melhor piloto de todos os tempos, referindo-se ao tricampeão em entrevista ao canal alemão RTL.

Então tá.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Brio e estupidez no Rio Grande do Sul

Sou paulista e não acho que onde nasci me faz superior em nada. Tem gente boa e gente ruim em todo lugar. Mas não consigo não ficar encucado com uma coisa: por que tantos gaúchos que conheci, pessoalmente ou pela mídia, confundem brio com estupidez?

Esse é certamente o caso do vice-presidente de futebol do Grêmio, André Krieger, que disse ver favorecimento ao Palmeiras na disputa pelo título brasileiro, uma vez que o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) absolveu o meia-atacante Diego Souza depois da cotovelada que ele deu em um rival do Cruzeiro.

"Não se pode abrir o coração sob risco de uma punição moral. Mas isso já aconteceu há alguns anos, contra o Inter, e o favorecido foi o Corinthians", afirmou ele, em entrevista à Rádio Bandeirantes.

Então tá.

O time dele é treinado pelo Celso Roth, estava surpreendentemente liderando o campeonato, caiu de produção e agora o Palmeiras está sendo beneficiado, igual ao Corinthians em 2005. Os parceiros do Palmeiras investiram milhões no time e na comissão técnica e o dirigente do Grêmio se vê prejudicado. Oquei.

A impressão que fica é que tem muito gaúcho provinciano comandando os dois clubes grandes do estado. Pra mim, os gaúchos são os chineses do Brasil: têm lá sua importância e ficam choramingando porque o mundo não admite que a terra deles é a mais importante que já existiu e que se eles não vencem sempre, é porque houve um terrível complo dos invejosos e inescrupulosos.

Um saco.

Em 2005 foi a mesma coisa em um grau muito maior com o Internacional. Eu defendia que o campeonato fosse anulado quando descobriram os roubos do juiz vagabundo. Mas os clubes quiseram jogar. Para continuar jogando, a exigência foi que se disputassem as partidas em questão mais uma vez. E o Corinthians saiu campeão. O Inter, como se nunca mais fosse ganhar um título na sua história, ainda reclama. Ganhou o Mundial e ainda reclama!

Um tédio.

Acho que alguém tinha de começar a dizer pros cartolas gaúchos que brio e estupidez são coisas diferentes. Os dirigentes do futebol do Rio Grande do Sul têm de aprender não apenas a perder, mas também a assumir responsabilidades.