sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Correspondentes na China acusam governo de interferir em mais de 30 reportagens

Maurício Savarese, especial de Pequim para o Comunique-se

O Clube dos Correspondentes Estrangeiros na China acusou o governo chinês de interferir em mais de 30 reportagens desde 25/07, dias antes da abertura dos Jogos de Pequim. Segundo o grupo, os incidentes incluem violência, destruição de material, detenção, constrangimento de fontes, interceptação de comunicações, proibição de acesso a áreas públicas, intimidação por autoridades, repreensão oficial, vigilância e outros obstáculos.

De acordo com o clube (FCCC em inglês), houve dez casos de violência –mais que o total confirmado no ano passado—e oito casos de danos a equipamentos ou destruição de fotos. Mais de 20 casos estão sendo confirmados. Até 20/08 deste ano, o FCCC contou 152 interferências do governo em reportagens –em 2007 foram 160 incidentes.

Os casos reportados incluem a detenção e a tomada de cartões de memória das câmaras de fotógrafos da Associated Press que tentavam cobrir um protesto durante as Olimpíadas, as agressões a um cameraman alemão por voluntários olímpicos pouco depois de ele tentar visitar a esposa de um ativista por direitos humanos e o constrangimento a um fotógrafo da France Press que foi obrigado pela polícia a apagar fotos em Xinjiang –leste do país, onde há um movimento separatista.

"Quem está lá no Olympic Green só vai falar de problemas que acontecem em qualquer grande evento. Mas quem está fora fazendo reportagem sobre os expedientes da China para receber os Jogos Olímpicos está sendo tão reprimido quanto sempre foi", disse o jornalista Gilberto Scofield Jr, há quatro anos correspondente do diário O Globo em Pequim e membro do FCCC.

Os incidentes reportados não incluem uma visita incomum da polícia chinesa ao apartamento de jornalistas do SBT que horas antes tinham baixado pela Internet fotos de uma campanha da Anistia Internacional pelos direitos humanos no país sede da 29ª edição dos Jogos Olímpicos.

Um dos casos mais famosos de interferência durante as Olimpíadas foi o de uma transmissão ao vivo da TV alemã ZDF desde a Muralha da China. Apesar de dezenas de autorizações, os jornalistas que entrevistavam um arqueólogo norte-americano sobre o assunto foram interrompidos por policiais que saltaram diante das câmaras.

Segundo o produtor Johannes Hano, os policiais alegaram que o especialista não era licenciado para tratar do assunto. " Apesar de a interrupção da nossa transmissão ao vivo ser uma pesada interferência, ela é apenas a ponta do iceberg do que vivemos a semana inteira de nossas planejadas transmissões ao vivo na China", afirmou.

A ZDF, uma das retransmissoras oficiais dos Jogos, fez um protesto formal ao Ministério das Relações Exteriores, mas não recebeu nenhuma resposta oficial, segundo um outro funcionário da TV alemã.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Preços olímpicos

Por estas bandas tive o prazer de arrumar ingressos para eventos bem edificantes, como hóquei na grama, arco e flecha e tênis de mesa. E também vi semifinais do tênis e partidas de basquete na primeira fase. Se eu somar o preço de todos os ingressos, gastei 250 reais. Comprando com agência de viagem e cambista.

Bem módico.

Mas para um chinês médio, cujo salário não passa de 200 reais, gastei uma fábula. Nas cacetadas de vezes que perguntei --com ajuda de tradutor-- se taxistas, garçonetes e aposentados tinham conseguido ingressos, a resposta que obtive quase sempre foi a de "não tenho dinheiro para isso". Não tinham mesmo.

Só em julho o núcleo da inflação na China --tirando combustível e comida-- bateu nos sete por cento. Os salários têm reposição ocasional, mas nem um crescimento de 20 por cento ao ano sustentaria isso para os caras, que estão vendo os preços da comida deles disparar. Uma das razões para isso são, surpresa!, os Jogos Olímpicos.

Pelo que contaram algumas das pessoas daqui, os vendedores mais simples, de agricultura familiar, costumam fornecer produtos para mercados de todo tipo. Esses vendedores, quase sempre de fora da cidade, não podem entrar. Caminhões de maior porte também não entram, por medo de que possam carregar armas.

Uma questão de segurança.

Vai chegando o fim das Olimpíadas e a impressão que se tem de algumas pessoas é de que será um alívio. O governo alertou há tempos que as amarras mais fortes durariam até o fim das Paraolimpíadas, mas já há quem pense que esse estado de Pequim quase sitiada não vai se manter por muito mais tempo.

Fico pensando se para um chinês médio, que viu o governo falar nessas Olimpíadas por sete anos, valeu a pena o esforço. O preço da comida subiu, o trânsito das pessoas pelo país deu uma boa desacelerada e os empresários que ganham mais de 400 reais ao mês já dizem que esse período desacelerou os negócios.

Propaganda é a alma do negócio?

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Uma curiosa equipe da TV Record em Pequim

Bar da zona leste de Pequim, meia-noite de segunda-feira. Eu estou no banheiro. Quando volto, vejo dois amigos agora acompanhados por uma outra colega, um gordinho e uma morena brasileira muito bonita. Me sento à mesa. E, do nada, a moça bonita começa a conversar comigo. Desconfio, só para variar.

Trinta segundos depois surge o diagnóstico: ela é repórter da TV Record e está desesperada para cumprir ordens do chefe. Precisa de gente que não goste da comida de Pequim. Alguém disse a ela, acidentalmente, que eu não curto algumas das gororobas que servem por aqui e a dita cuja caiu matando.

"Mauricio, você não gosta da comida da China, não é verdade?", pergunta ela, que de cara não vê problema em entrevistar um jornalista para fazer sua reportagem.

"Não é verdade", respondo.

"Eu preciso de pessoas que não gostem da comida da China. Me conte do que você não gosta", insiste a brasileira, que não desiste nunca, já com bloquinho na mão.

Um dos meus amigos vai além do meu susto e fala alto: "É assim que vocês cavam as pautas de vocês? Vocês estão reportando ou estão buscando gente que caiba no que vocês querem ouvir?", disse ele.

A moça, a esta hora não tão bonita, fingiu que não ouviu e pediu meu telefone com aquele sorriso que todo mané acha que vem de mulher que quer levá-lo para a cama.

"Não sei o número", respondi, enquanto andava para a porta com o celular à mão, fingindo estar falando com alguém.

Cinco minutos depois, ela saiu do bar. E eu ainda com o celular na mão e com uma vergonha alheia do tamanho do mundo. A bonita e o gordinho ainda caçavam quem coubesse na pauta deles.

A China realmente exagera quando fala na mídia ocidental malvada. Porque pelo menos no caso da brasileira, ela não é mal intencionada, como no caso da equipe da TV Record que me abordou.

Eram apenas jornalistas vagabundos e picaretas, sem raiva do país.

Logo depois lembrei que a TV Record terá exclusividade da retransmissão dos Jogos Olímpicos de 2012. Será que a moça bonita e o gordinho ainda estarão por lá?

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Após incidente, SBT teme vigilância em Pequim

Maurício Savarese, especial de Pequim para o Comunique-se

A aparente coincidência entre uma visita policial e o download de fotos da Anistia Internacional críticas ao respeito dos direitos humanos na China deixaram a equipe de reportagem do SBT em Pequim com dúvidas sobre se ainda está sendo vigiada durante a cobertura dos Jogos Olímpicos.

Na semana passada, três policiais fizeram uma segunda e atípica visita à equipe de 13 pessoas que vieram do Brasil, instaladas em dois apartamentos perto do Parque Olímpico. Pouco antes, o repórter especial Sérgio Utsch tinha baixado fotos de uma campanha da seção européia da Anistia Internacional para ilustrar uma reportagem.

Os policiais tiraram fotos assim que a porta foi aberta e, convidados pelos funcionários do SBT, entraram nos apartamentos. Checaram passaportes, fizeram perguntas que não se relacionavam com as fotos e deixaram o local, segundo Utsch. Desde então, os jornalistas se preocupam com o tratamento que podem receber na sede dos Jogos Olímpicos.

"Não posso afirmar que estamos sendo vigiados, não tenho provas disso. Mas vou levar essa dúvida daqui. A gente não deixou de fazer nada por isso. Não viemos para provocar a polícia, sabemos das limitações. Só que a preocupação fica, até porque as regras nunca são muito claras", disse Utsch ao Comunique-se.

Normalmente a polícia chinesa faz apenas uma visita a estrangeiros recém-instalados no país, horas depois de eles se registrarem na delegacia mais próxima.

Responsável pela equipe do SBT em Pequim, Alexandre Carvalho, compartilha a preocupação dos colegas que produzem, de acordo com ele, "reportagens sem nenhum tom ufanista e que, às vezes, podem parecer mais críticas".

"Ficamos mais receosos porque tudo isso que ouvimos de outros colegas chegou perto da gente. E o receio se justifica porque eles têm posição de nos monitorar se quiserem. Sem contar que todos os sinais de transmissões na China passam pelo centro de imprensa deles. Só depois eles passam para o satélite dos EUA", afirmou Carvalho.

"Mesmo assim estamos confiantes de que dá para fazer um bom trabalho. Somos uma emissora fora do circuito dos esportes olímpicos, estamos mais na cidade e é natural que surjam algumas dificuldades. Esperamos que tenha sido apenas uma coincidência", completou.

domingo, 17 de agosto de 2008

Sanlitun, Brasil

O amigo e jornalista Felipe Corazza, meu anfitrião em Pequim, tem a tese de que onde estiverem pelo menos cinco brasileiros haverá um pandeiro. Nada mais adequado para definir o caos criado por pelo menos trinta pessoas de verde e amarelo que ocuparam na noite de sábado a gringolândia local, chamada de Sanlitun.

Em uma região cercada de bares metidos a besta, eu e outros amigos paramos para conversar com dois nigerianos e um mexicano que estavam bebendo do lado de fora das baladas, sentados em cadeiras mal ajambradas de uma tiazinha da cerveja na entrada de um estacionamento. Sim, somos do terceiro mundo.

Minutos mais tarde pararam alguns blogueiros de Brasília. Pouco depois, com um pandeiro, chegou o pessoal que vinha da partida de vôlei entre Brasil x Polônia. Em seguida, junto da batucada, surgiram mais tupiniquins e, surpresa!, outro pandeiro. Eis o furdúncio que deixou os seguranças e a polícia preocupados.

Foram pelo menos três horas de batucadas, capoeira de nível iniciante no meio da rua, cervejas a 75 centavos de real --para mim, água, por 60 centavos-- e até homenagem a Dorival Caymmi, que neste fim de semana foi para Maracangalha.

Uma chinesa que via a cena disse que achou engraçado. Outros estrangeiros se esbaldaram e pelo menos três deles me contaram que seria ótimo realizarmos grandes eventos esportivos no Brasil porque o povo compensa a falta de estrutura. "É a primeira vez que vejo um grupo de pessoas realmente feliz aqui em Pequim nas Olímpiadas", disse um canadense de Winnipeg.

Faz sentido.

Foi a primeira vez que vi um grupo não se preocupar com polícia para fazer bagunça. As pessoas aqui não estão lá muito estimuladas a serem barulhentas nas ruas, com medo de terem os vistos cassados ou de irem para o xilindró. O maior exemplo disso foi o um grupo de irlandeses bêbados andando no metrô após a cerimônia de abertura sem dar um pio. Nada mais anti-natural.

Para os policiais chineses, no fim das contas, o único problema que realmente criamos foi de trânsito na rua. Ali não é área residencial e os pequineses que ali aparecem já são bastante escolados --o que muitas vezes faz com que eles sejam acusados de serem ocidentalizados demais.

Mas nos demos por satisfeitos ao promovermos um encontro de dezenas de pessoas sem pedir autorização ao governo chinês. Um grupo brasileiro que luta capoeira tentou conseguir permissão para jogar na rua dias antes e foi barrado. Por estas bandas, o importante é fazer sem pedir licença. Façamos.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Obrigado, Dunga

Tá certo que a seleção brasileira não está jogando grande coisa. E que persiste a dúvida sobre quem é o mais apagado entre Diego, Ronaldinho e Alexandre Pato. Mas a vitória por 3 x 0 sobre a China foi uma das que mais comemorei nos últimos tempos, mesmo não sendo lá um fanático pela equipe canarinho.

(Prefiro o Corinthians. Assim como qualquer torcedor brasileiro da minha idade prefere torcer pelo seu clube e não jura amor pela seleção brasileira apropriada pela Nike e pelo presidente da CBF.)

Enfim.

Caminhava eu por uma rua perto da Praça da Paz Celestial, quando passei por uma lanchonete do McDonald's que transmitia o quebra-canelas. Decidi parar, apontar para o cardápio para pedir algo de comer e me abundar em meio a uns vinte chineses que gritavam o seu insuportável Zhongguo Jia You (Vai China, em mandarim).

Está acabando o primeiro tempo. Parece que não perdi muito.

Os locais ainda gritavam e o placar estava 1 x 0 para o Brasil. E o time da China só correndo para, quem sabe, conseguir uma vaga nas disputas do atletismo. Não rolou. Mesmo assim, o povo na lanchonete se empolgava com os piques dos comunistas.

Começo a falar sozinho, em português, demonstrando que quero que o time deles se arrebente. Não há mais nenhum outro estrangeiro ali. Os chineses me olham com cara de curiosidade, outros desviam e uns três conversam e riem. Minha paranóia nessas situações reforça que o assunto sou eu. E nada de o Brasil marcar mais.

Intervalo. Eu ainda sou o assunto. Vou comendo. Bem irritado.

Sigo no meu idioma e eles no deles. Concentro as minhas ofensas nos chinas que pareciam estar falando de mim. No meio de um xingamento, Thiago Neves começa a me redimir e marca o segundo. Comemoro de leve, com ar de quem já viu milhares de gols.

Apenas um soco no ar, sem gritar nada e com cara de indiferença para os chineses. Afinal, vencer no futebol é obrigação para brasileiro. "Podem gritar à vontade, seus manés!", digo eu.

E eles param.

Ficam conformados em ver alguns dribles bonitos do time brasileiro. Param de falar de mim. Começam a sorrir quando me olham --todos secam os estrangeiros aqui e é sempre com cara de "você é estranho pacas com esses olhos fundos!"

Eu quero é convulsão social com uns 5 x 0 no placar. Mas só rola mais um golzinho, que comemoro com um pouco mais de socos no ar e em silêncio. Os chinas desistem de torcer e só assistem ao jogo.

Celebro a vitória por um outro motivo. Por aqui muitos dizem que os negros não são gente de verdade. Amigos já testemunharam situações desse tipo antes dos Jogos Olímpicos. Por isso, quero que a China perca sempre que enfrentar a negrada.

Imagino que nem todos os chineses pensem assim, mas me senti um tanto redimido ao ver que o Brasil, cheio de afro-descendentes, bateu sem esforço no esporte mais popular do mundo o time da nação mais povoada e que se vê às portas do primeiro mundo.

Obrigado, Dunga. Por enquanto.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

A China que cansa

Com o passar do tempo a China começa a dar no saco. Neste país, onde as crianças cagam e mijam em qualquer lugar e onde os motoristas de taxi cada vez mais fingem não entender um pedido --mesmo que você fale chinês--, não dá para ver nada que não seja propaganda da equipe olímpica nacional na TV.

Não interessa se você quer assistir ao jogo da seleção de futebol do Brasil ou o time de basquete dos Estados Unidos. Quem está aqui não vai ver nada pela televisão que não seja um chinês levantando peso ou uma chinesa mandando ver no tiro.

Sem contar que mesmo com cacetadas de gringos aqui, as pessoas continuam te olhando embasbacadas no meio da rua. Tem umas crianças que chegam a fugir de medo. Nas primeiras semanas é engraçado, mas agora eu só consigo mandá-los para aquele lugar. Ou tomar naquela parte. Obrigado, língua portuguesa!

Os voluntários, então, nem se fala. São milhares de grandissíssimos manés, que raramente sabem a resposta para qualquer pergunta que você faz. Ontem assisti ao meu primeiro evento olímpico --as eliminatórias da emocionante disputa do arco e flecha-- e rigorosamente nenhum voluntário conseguiu ajudar em nada.

Não dá para vê-los como algo além de jovens bem relacionados que arrumaram um esquema patrão para assistir aos Jogos Olímpicos.

Meu amigo Victor, correspondente da rádio Eldorado na Ásia, tem uma música do Jorge Ben Jor chamada Ive Brussels como toque do seu celular. Cada vez que o telefone dele toca e eu ouço, lembro de como quero dar o fora daqui logo. Logo mesmo.