sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Muralha da China

O rapper Mano Brown costuma dizer que quem é do gueto nunca tira o gueto de dentro de si. A frase resume o que sinto a milhares de quilômetros de distância de casa, na cidade sede dos 29os Jogos Olímpicos.

Eu nasci no bairro do Jardim da Saúde, que já foi bem mais pobre. Talvez por isso me sinta mais à vontade no apartamento suburbano onde estou hospedado em Pequim. Aqui não tem nenhuma suntuosidade de cerimônia de abertura --que evento mais tedioso!-- nem gente de todo o mundo desfilando pelas ruas.

Os chinas que vivem aqui têm traços parecidos com os da gente simpática da rua Doutor Malta Cardoso. Aqui e lá, tem gente que dá duro para satisfazer necessidades básicas e segurar um troco para o sorvete da molecada e para a cerveja de cada dia --não no meu caso.

A diferença é que aqui, pelo menos nessas duas semanas em que ando pela cidade, não vi uma vez sequer algo equivalente às peladas no asfalto quente, quando galegos e negões jogavam no mesmo time e faziam clássicos memoráveis, para depois dividirem uma garrafa de refrigerante tamanho família. Aqui, dizem os dados oficiais, 90 por cento das pessoas são da mesma etnia, a han. Será mesmo?

Bem perto de onde estou, há um conjunto habitacional para migrantes. Eles viajam pelas grandes cidades para fazer obras a soldo do governo. São quase sempre homens e mulheres da Mongólia Interior, do islâmico Xinjiang e do Tibet, além de outras regiões menores, que são reunidos ali para fazer obras cujo resultado final raramente vão desfrutar.

Os Jogos começaram, mas esses daqui de Babaoshan passam longe de qualquer instalação olímpica. Trabalham na construção civil e são sortudos, porque a maioria dos outros migrantes já foi mandada para casa há semanas. Esses daqui de perto labutam em um conjunto de prédios de onde sai barulho de noite e de dia.

Os migrantes costumam parar tudo para assistir ao evento da passagem de um laowai (estrangeiro). A principio achei aquilo muito irritante. Mas não foi mais irritante do que a obra que ergueram há alguns dias: grandes tapumes ao redor do local onde residem, parecidos com os que vi protegendo áreas menos privilegiadas entre o aeroporto e a cidade. Alguns já disseram que é um tipo de gueto. Ainda não sei se concordo.

Há chineses que dizem que a questão dos migrantes precisa ser resolvida urgentemente e apóiam grupos de defesa dos direitos dessa gente, todos chancelados pelo Partido Comunista Chinês. A grande questão para esse povo é que os filhos da massa interiorana não podem estudar nas mesmas cidades onde os seus pais trabalham.

Para outros, esses trabalhadores não são seres humanos. Muitos não hesitam em dizer que uigures (do Xinjiang), mongóis e tibetanos não merecem confiança nem maior autonomia para as suas regiões.

Um impasse que nunca sai das entrelinhas, em favor do que chamam por aqui de "sociedade harmoniosa". Harmoniosa onde?

"Meiyou banfa", diriam os migrantes. Não tem saída. Já ouvi esse papo antes no gueto do Jardim da Saúde.

Os tapumes estão cobertos por faixas e pinturas relacionadas aos Jogos Olímpicos. Sinais cheios de cores, anéis que representam os ideais do movimento relançado há pouco mais de um século e que pela primeira vez é realizado em solo chinês.

Além dos desenhos, o tapume é coberto pelo slogan das Olimpíadas de Pequim: One World One Dream. Um mundo, um sonho.

Uma China? Na atual condição, isso parece bem improvável.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Repórteres vêem restrições leves à cobertura olímpica. Por enquanto

Maurício Savarese, especial de Pequim para o Comunique-se

Jornalistas que participam da cobertura das Olimpíadas de Pequim avaliam que a China não impôs pesadas restrições para o seu trabalho até agora, mas se dizem preocupados com a possibilidade de isso acontecer e consideram difícil o acesso a informações fora do centro de imprensa durante o maior evento do esporte mundial.

O coordenador da cobertura da Folha de S.Paulo nas 29ªs Olimpíadas, Fabio Seixas, afirma que a primeira grande dificuldade surgiu na quarta-feira (06/08), no acompanhamento ao percurso da tocha em Pequim. As autoridades informaram apenas sobre os locais de início e fim da passagem do símbolo que causou confusão em vários países do mundo. A falta de detalhes sobre o trajeto, diz ele, atrapalhou a cobertura.

"É complicado de obter qualquer informação que tenha o mínimo vínculo com segurança, como o portão pelo qual a tocha iria chegar. O outro problema que tivemos também foi fora do centro de imprensa, quando fomos cercados pela polícia durante uma reportagem em uma área de hutongs (moradias de estilo chinês). A intérprete precisou intervir e fomos embora. Mas dentro do centro de imprensa as coisas têm fluído bastante bem", diz o jornalista, que está à frente de um grupo de dez repórteres.

Para Seixas, o centro de imprensa pequinês responde bem aos pedidos de entrevistas com responsáveis pela infra-estrutura olímpica e tem se esforçado para atender às necessidades da mídia estrangeira, tantas vezes retratada pelo governo chinês como parcial e preconceituosa contra o país. "Não dá cinco minutos que você pede o contato de alguém, eles te ligam de volta com o número de quem vai falar", comentou o jornalista, que chegou à capital chinesa uma semana antes da abertura dos Jogos.

Editor de fotografia da agência de notícias Reuters, o americano Rickey Rogers concorda com as críticas e os elogios do jornalista brasileiro, e também prevê dificuldades no acesso a informações rápidas sobre os resultados. "Existem poucos terminais para isso fora do centro de imprensa e isso nos limita bastante. Outra questão é a falta de acesso à internet fora do centro de mídia. Se estamos fora de lá, tempos de pagar e pagar caro para usar a Internet e enviar material ", afirmou ele, que integra uma equipe de quase 60 fotógrafos e editores de fotografia.

Apesar desses entraves, Rogers considera a estrutura de mídia montada por Pequim superior à de Atenas. "Pelo menos está começando assim. Como vai acabar, ninguém sabe. Existe uma tensão no ar, todos percebem", diz.

Os freelances que tentarão se aventurar nos Jogos Olímpicos enfrentarão dificuldades muito maiores. Esse é o caso do repórter português Francisco Q, que prefere não revelar todo o sobrenome. Há cerca de dez anos rodando pela Ásia, o jornalista de 30 anos veio à China várias vezes, mas sentiu dificuldade especial no ano do evento internacional mais importante que o país recebeu em sua história milenar.

"Só para conseguir um visto no Japão foi um terror. Tive de assinar declaração me comprometendo a não fazer reportagem, mas estou fazendo do mesmo jeito. Não tenho credenciamento para as áreas olímpicas, é fato, mas a cidade está aí para ser vista. Não acho que vá faltar material para quem quiser escrever sobre algo à parte dos Jogos, mas o medo de ser pego vai estar sempre ali", afirma.

Brasileiros penam nos bares chineses para ver estréia nos Jogos

Por Maurício Savarese

PEQUIM (Reuters) - Se o jogo poderia ter sido melhor para a seleção feminina de futebol do Brasil, que empatou sem gols com a Alemanha na primeira rodada do torneio olímpico nesta quarta-feira, foi muito pior para os torcedores do país que tentaram assistir à partida em bares e restaurantes da capital chinesa.

Poucos televisores estavam ligados na estréia da equipe feminina de futebol, apesar de muitos bares e restaurantes terem adquirido aparelhos às vésperas das 29as Olimpíadas, contaram brasileiros que estão na cidade.

Nem mesmo o pub esportivo Goose and Ducks, perto da região de bares de Pequim e lotado de televisores, transmitiu o jogo, o que frustrou bastante um grupo de pelo menos cinco brasileiros que pretendia se concentrar ali.

"Todo mundo teve de correr para casa para assistir. Tinha falado com o dono do bar, que achava que poderíamos ver o jogo lá. Na hora, eles disseram que tinha caído o satélite", disse a paulista Juliana Scombatti, que vive em Pequim e trabalha para uma multinacional suíça.

Estranhamente, segundo ela, a partida estava sendo televisionada pelo canal estatal CCTV, que não costuma exigir nenhum tipo de satélite. Nenhum local visitado pela reportagem da Reuters na zona oeste da cidade estava com os aparelhos ligados no primeiro evento da Olimpíada.

No horário local, o jogo começou às 17h, quando muitos restaurantes já estão servindo o jantar. Em um deles, o televisor só foi ligado a pedido de um casal de brasileiros que vive na cidade e preferiu não se identificar.

"Viemos para cá porque é perto de casa. Não tem nenhum ponto claramente brasileiro em Pequim. Sem contar que o pessoal que veio parece estar bem disperso na cidade", disse um brasileiro de 25 anos, que trabalha em uma empresa chinesa.

Os chineses ali presentes mostraram indiferença com a partida de futebol na TV, que tinha frente a frente as duas finalistas da última Copa do Mundo feminina, disputada na China e que teve a Alemanha como campeã.

Apenas nos minutos finais, alguns funcionários prestaram atenção no jogo, possivelmente por solidariedade com os brasileiros que sofreram com o 0 x 0. A maioria dos chineses preferiu apenas evitar as mesas perto da televisão.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

A China e a Internet

Dizem que por enquanto as coisas estão menos ruins do que de costume. Mas isso não significa que o acesso aos sites de todo o mundo esteja muito mais fácil.

O computador que uso já foi todo traduzido para o português. Aproveito para mostrar o que ganha quem tenta acessar o site da BBC em mandarim, por exemplo:

A conexão foi cancelada

A conexão foi cancelada pelo servidor enquanto a página era carregada.

* O site pode estar indisponível ou muito ocupado. Tente de novo em alguns instantes.

* Se você não conseguir abrir nenhuma página, verifique a conexão de rede do seu computador.

* Se o computador ou rede estiverem protegidos por um firewall ou proxy, certifique-se de que o Firefox está autorizado a acessar a web.

Eles dão opções para esconder que simplesmente bloquearam o site. Não era mais fácil simplesmente dizer que tal site ataca interesses do país, que faz parte da malvada mídia ocidental?

Pelo visto, não.

Negócios da China

O comerciante chinês é, antes de tudo, um espertalhão. O nível da picaretagem é tão grande que eles parecem até brasileiros. Talvez com um pouco mais de vergonha. Talvez.

A sacanagem mais óbvia é vê-los oferecendo um produto por quatro vezes o preço original. Especialmente os gringos bobos se empolgam, pechincham até metade e vão embora bem satisfeitos. E o chinês vendeu pelo dobro do preço.

Outros são apenas desonestos. Oferecem um produto e entregam outro. Foi isso que tentaram fazer comigo e uma amiga quando tentamos comprar um laptop em um desses shoppings pequineses onde aparecem hordas de atletas babacas fingindo negociar.

Fomos a uma espécie de paraíso dos eletrônicos acompanhados por um amigo fluente em chinês. Achamos que isso ajudaria na negociação. Depois de puxadas de braço e disputa entre os vendedores de diferentes lojas, optamos por um comerciante menos agressivo. Dois andares acima estavam as máquinas.

Chega a dona da loja, sorridente demais pro meu gosto. Lembrei do Chico Buarque e da sugestão do Ministério do Vai dar Merda, que serviria apenas para alertar sobre projetos do governo que corressem grande risco de dar errado. Começa a negociação, em chinês para ver se há alguma empatia.

Vinte minutos de conversa e chegamos a um modelo. Laptop moderno, com webcam, memória isso, placa daquilo e outros tremiliques mais. O preço: 4,3 mil iuans ou cerca de mil reais. Consultados os oráculos, a conclusão foi de que o preço era bom para o aparelho, que poderia custar mil iuans a mais.

Negócio fechado.

Saio para buscar dinheiro no caixa eletrônico.

Volto 10 minutos depois e o negócio está desfeito.

Malandra, a vendedora tentou empurrar um computador bem pior, sem webcam, sem memória disso nem placa daquilo. Uma máquina que custaria na Internet 3 mil iuans. E admitiu dando risada de leve, como se dissesse "vocês não foram otários pra comprar este, mas vão ser otários pra comprar outro".

Ela não sabia que somos brasileiros e não desistimos nunca.

Comunista vagabunda foi a ofensa mais branda à moça. Que, na cara de pau, dizia que era melhor comprar ali do que na Internet, porque na loja podíamos ver a mercadoria.

Coisa de gênio o argumento.

Ainda bem que as vendas pela Internet na China só crescem. Lidar com os caras do comércio daqui é uma experiência desnecessária.

domingo, 3 de agosto de 2008

Chinês não entende português. Ainda bem.

Minha readaptação ao Brasil será difícil. Estou na China há uma semana e já adquiri um vício: dizer em português as maior perversidades do mundo, certo de não ser compreendido. A sensação de liberdade é inigualável, mesmo em um país que não é lá muito conhecido por sua tolerância. Recomendo altamente.

Nada é tão salutar como soltar um delicioso "FDP" seguido de um sorriso singelo para xingar motorista de taxi que tenta sacanear ou que se recusa a fazer uma corrida por estarmos hospedados muito longe do centro --o que é corriqueiro.

Nós brasileiros adoramos comentar em voz alta sobre as roupas das pessoas, os cortes de cabelo, o cheiro ruim, a neurose com a segurança, a questão de Taubaté (região cheia de monges budistas), a poluição insuportável (que eles chamam de névoa) e o massacre da Praça da Paz Celestial ("o incidente de 89" para os chineses).

E absolutamente ninguém vem nos encher o saco. Para quem fala inglês ou francês, os cuidados bem são maiores, me garantiram alguns estrangeiros nada latino-americanos que vivem por estas bandas. Quem fala português pode ser subversivo à vontade.

O português é tão insignificante por estas bandas que na noite de domingo, em um bar da gringolândia local, a velha guarda da Vila Isabel, com cara de quem estava de sacanagem, entoou o samba enredo "Liberdade, Liberdade! Abra as asas sobre nós!", que deu à Imperatriz Leopoldinense o título do desfile das escolas de samba do Rio em 1989. Se alguém gritar liberdade em chinês, provavelmente aparecerão umas três viaturas da polícia oferecendo toda a segurança da delegacia e, quiçá, do xilindró.

Os brasileiros notaram a provocação, riram, eu cantei mais alto, e todos dançamos até cansar. Mas os chineses, talvez precavidos por não entenderem o que cantávamos, não se empolgaram muito com o samba estilo livre dos tupiniquins. Nem sequer atenderam a alguns pedidos meus, de "dança, vagabundo comunista". Nenhum deles entendia meia palavra de português. Nem de samba.

Falar meu idioma original com a certeza de não ser compreendido é um bálsamo em um país onde o Estado está em todo lugar --o FDP motorista de taxi, a menina canhão que vejo na rua ou a tiazinha simpática da casa de chá podem ser agentes de segurança do governo. Podem ser. Mas duvido que o concurso para o cargo de delator exija conhecimento de língua portuguesa.

Ainda bem.

sábado, 2 de agosto de 2008

China irrita sambistas brasileiros e censura batucada

MAURÍCIO SAVARESE - REUTERS

PEQUIM - Dias de clausura, alimentação limitada a sanduíches e proibição de batucada dentro de um bar pela polícia chinesa. Os integrantes da velha guarda da escola de samba Vila Isabel dizem que não esperavam por isso ao serem convidados para uma nada política apresentação na sede das 29as Olimpíadas.

Em mais um esforço pré-Olímpico para promover diferentes culturas, o Ministério da Cultura chinês organizou na sexta-feira e no sábado o show "Noite Latino-americana" no Grande Salão do Povo, em Pequim, onde se reúne anualmente o Congresso Nacional do Partido Comunista. Mas, segundo os sambistas, não soube lidar com os convidados estrangeiros.

"Na quinta-feira chegamos às 9 da manhã e tivemos de esperar dez horas para ensaiar. Não podia sair. No dia seguinte foi a mesma coisa. Não aguento mais ver sanduíche e água, que foi tudo que comemos. E comemos no chão, porque não podia sair nem do camarim", disse à Reuters o mestre Adilson Pereira após o show do sábado.

"Batucar também não podia. Nem aqui nem na rua. Quando batucamos em um bar do outro lado do hotel onde ficamos veio polícia e tudo. O que a gente passou aqui não é mole", comentou outro membro da delegação da Vila Isabel.

Segundo ele, os policiais consideraram 1 da manhã um horário inapropriado para manifestações culturais barulhentas dentro do bar.

Uma fonte da diplomacia brasileira em Pequim afirmou que a embaixada deve divulgar uma nota oficial nos próximos dias para lamentar o tratamento dedicado aos sambistas, que seguirão no país para outras apresentações.

PASTICHE

Além dos problemas fora do palco, os sambistas brasileiros também sofreram com o pouco tempo que tiveram para, possivelmente pela primeira vez na história, colocar quatro mulatas para dançar seminuas em um palco onde se reúnem membros do governo chinês.

Visivelmente frustrados, os membros da Vila Isabel tocaram "Kizomba" e "Aquarela Brasileira" em cinco minutos, após esperarem 1h20 ao som dos artistas de Argentina, Cuba, Colômbia, Peru e Bahamas.

Para o sonolento público chinês presente, não fez diferença quando os brasileiros entraram no palco para sua breve performance. Houve quem saísse do salão e quem se espantasse com os trajes sumários das mulatas.

Ao lado da reportagem da Reuters, uma moça colocou as duas mãos sobre a boca, em sinal de incredulidade. Um senhor preferiu ir embora e voltar apenas quando começou a apresentação dos mariachis mexicanos.

Muitos homens olharam sem demonstrar nenhum desejo, nem mesmo quando as moças desciam sensualmente até o chão. O Carnaval não é transmitido na China, por ser considerado lascivo demais. No final, aplausos não mais do que formais.

O ápice da programação oficial foi quando o grupo de mexicanos entoou a canção chinesa "Molihua". Aplausos quase delirantes.

Para os brasileiros, a recepção do público foi boa o suficiente.

"É um público que mal sabe o que fazemos e que, levando isso em conta, foi muito bacana com a gente. Mas espero que tocando nos bares a gente consiga chamar a atenção um pouco mais para o samba de verdade do Brasil", disse mestre Adilson, campeão do Carnaval do Rio de Janeiro de 2006.