sábado, 9 de fevereiro de 2008

Pelo bom humor na Casa Branca

Este blog decidirá agora as confusas primárias da eleição presidencial norte-americana. Sabendo do seu peso para as definições democrata e republicana, ele declara apoio aos candidatos Barack Obama e Mike Huckabee.

O motivo é simples: eles sabem fazer piadas.

A preocupação não é o que é melhor para os EUA ou para o mundo. Afinal de contas, as discordâncias entre os candidatos não é tão sensacional e nas terras do Tio Sam o Congresso funciona de verdade, não é apenas um anexo do Poder Executivo.

Eis as comprovações da capacidade humoristica de ambos, em vídeos sem tradução para o português:

Huckabee e Chuck Norris: http://www.youtube.com/watch?v=EjYv2YW6azE&feature=user

Obama pede assessoria a Hillary: http://www.youtube.com/watch?v=rhPxSm9Es0w

Os sem-agenda

Governo e oposição iniciaram o ano legislativo após o Carnaval do mesmo jeito que caminharam no ano passado: sem debate, sem idéias e sem agenda. A meses das eleições municipais, o Congresso brasileiro andará a passos de pepino-do-mar, já que mais importante do que discutir as reformas necessárias para o país é promover figurinhas carimbadas que querem disputar prefeituras de cidades como Itapipoca ou Quixeramobim do Oeste.

Um tédio. E o exemplo maior dessa postura é a polêmica pelo uso dos cartões corporativos.

Ao alimentar a notícia velha que recentemente ganhou nuances mais dramáticas, os parlamentares optam por transformar o Planalto Central em delegacia de polícia até maio –depois disso todo mundo vai fazer campanha para si ou para outros—e inutilizar qualquer tentativa de reforma tributária, de formatar uma proposta de reforma universitária que não seja refém dos tubarões da educação (como o senador governista Wellington Salgado, sósia do Shrek) ou de responder à crise dos Estados Unidos com estímulos à economia.

Preferem não legislar e fazer um jogo governo-oposição no qual as questões diante do país têm muito pouca importância, já que a prioridade é polemizar e travar o debate sobre o que realmente importa: como combater a corrupção com um sistema de saúde mais justo, como melhorar a educação de alunos e professores...

Agora a proposta é de mais uma investigação parlamentar fadada ao fracasso prático –eu sugiro o nome dado pelo ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, de CPI da Tapioca, em referência aos quitutes comprados por R$8,30 pelo colega dele na pasta do esporte.

Os gastos são públicos e a Controladoria Geral da União está estudando os casos. Mas os deputados e senadores, em vez de optarem pelo “vamos aproveitar o ano até chegar a eleição municipal”, preferem a alternativa “precisamos de mais um argumento para dizermos que esse é o governo mais corrupto da história/esse é o governo que mais combateu a corrupção na história”. Não é à toa que a aprovação do trabalho dos parlamentares raramente supera os 50 por cento da população.

Por que será?

Eu mostrarei agora o meu dom de prever o futuro (tá certo que isso aconteceu outras vezes, mas futuro é futuro...). Daqui algumas semanas, quando a CPI estiver fora do foco, os parlamentares vão reclamar do Poder Executivo por enviar medidas provisórias em excesso para o Congresso.

Dirão que é isso que atrapalha o seu trabalho. Como se os governos forem os únicos culpados por os parlamentares gostarem tanto de uma CPI quanto o ministro do Esporte gosta de tapioca...

Fado triste.

A maior dúvida sobre esse assunto continuará: com tanto deputado e senador paralisado pelos holofotes, gente que dá declarações até para a luz da geladeira quando vai fazer mais uma boquinha de madrugada, como poderia ser diferente?

Alguém precisa governar e parece que deputados e senadores não querem ajudar nisso.

Não há nada de errado na imprensa fazer o seu papel ao cobrar transparência e noticiar o mau-uso dos cartões, tanto na esfera federal como na dos estados, como São Paulo. Apesar dos exageros que podem ocorrer, é melhor haver exagero do que censura.

O problema de verdade está na falta de agenda do Congresso. Os mesmos parlamentares que fingem lutar contra o desperdício de um lado, do outro despejam recursos públicos na lata do lixo, ao não exercerem seus mandatos com independência em relação ao calendário das urnas e à atenção da mídia.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Ibope

O jornalismo esportivo não se pauta muito pelo jornalismo. O jornalismo cultural também não. Juntando os dois, o que daria? Eu não sei dizer, mas que é ruim pacas, é sim.

Foi isso que me veio à cabeça ao ler o texto de um colega (?) na Internet, com o título "Corinthians faz Globo levar tombo histórico no Ibope" e ilustrado pela foto de um atleta do clube com as mãos no rosto, em sinal de desespero.

A partida da derrubada histórica foi a tediosa Barueri 1 x 1 Corinthians, pela sétima rodada do desinteressante Campeonato Paulista em uma Quarta-feira de Cinzas (contextualizar é jornalismo e ajuda a pesar as coisas).

Naquela noite, diz o colunista, "de acordo com o 'minuto a minuto', o jogo teve uma das piores audiências já registradas em um jogo de futebol exibido pela Globo, em São Paulo".

O rapaz afirma que ao fim do primeiro tempo a Globo somava 15 pontos e "incríveis 27 pontos para a Record", que exibia sua novela. Diz ele que é a primeira vez em que isso acontece durante um capítulo inteiro. Pois bem.

Surgiram então as sugestões de que a torcida do Corinthians teria desistido de acompanhar o clube, que não é Fiel coisa nenhuma, que a Globo estaria sendo repreendida por gostar demais do clube do Parque São Jorge, que tem de repensar se valeria pagar muito para transmitir os jogos do time na Serie B do Brasileirão...

Tudo muito lindo. Só faltou contextualizar.

- A Globo está sendo frequentemente derrotada no Ibope pela Record nas últimas semanas. Fantástico, novela, jornal. Todos perdendo, mesmo sem dependerem do Corinthians. Se o time não está no seu melhor momento, tampouco está a Globo.

- O Campeonato Paulista só interessa de verdade para clubes médios e pequenos. Os grandes têm outras preocupações, assim como os seus torcedores.

- A Record está investindo em muita coisa, inclusive em um novo jornal cuja primeira edição deve sair ainda em fevereiro. A TV está melhor e atrai mais espectadores. Ao contrário do que diz o repórter (?) os números da Record só são incríveis para quem não acompanha esse movimento.

- Quando as empregadas domésticas já começam a comentar da novela, é sinal de que o bicho está pegando de verdade. A Record copiou a fórmula da Globo e está fazendo sucesso com a sua teledramaturgia.

Dessas coisas, todos os funcionários da Globo e da Record já sabem. Mas parece que o colunista --hoje em dia todo mundo é colunista-- não foi avisado.

Outros incautos que repercutiram a notícia sem espírito crítico estão na mesma.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Sem entender

Já que ainda não dá para entender direito o fundamentalismo islâmico de Osama bin Laden, fiquemos com este vídeo. Pelo menos ele ajuda a notar que o rapaz não está de brincadeira, mesmo que isso signifique acabar com a infância de dezenas de crianças.

http://edition.cnn.com/2008/WORLD/meast/02/06/iraq.main/index.html#cnnSTCVideo

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Superterça de Obama

Para quem gosta de política, independentemente das matizes ideológicas que abraça, esta é uma real superterça. A mais acirrada disputa da história para concorrer à Casa Branca chegou ao seu auge, para republicanos e democratas. E independentes.

A razão principal de tudo estar como está, completamente imprevisível, é o fato de o senador Barack Obama disputar o emprego de homem mais poderoso do mundo.

Obama, um símbolo mais do que um homem de propostas, se posiciona contra a mulher de um ex-presidente, um mormon endinheirado e um veterano de guerra republicano quase tão democrata quanto ele próprio.

Por isso, nunca o clichê de que se trata de uma briga entre o passado e o futuro fez tanto sentido em uma eleição americana.

Com descendentes africanos pobres, mas alguma tranquilidade de classe média ao longo do resto da juventude, Obama tem 46 anos, assim como o ex-presidente Bill Clinton quando foi eleito pela primeira vez. O vínculo dele com os mais jovens --mostraram pesquisas-- é um dos principais motivos para acirrar a disputa e levar gente antes ociosa a votar, já que por aquelas bandas o sufrágio não é obrigatório.

Obama não tem o passado pobre dos reverendos Jesse Jackson e Al Sharpton, negros como ele e candidatos presidenciais sem chances de vencer quando concorreram --sem votos por serem negros e por serem cristãos demais. Mas supre a falta de miséria aliando o carisma de senso de humor, tiradas rápidas e comentários acidos à retórica do não-sou-candidato-negro-apesar-de-usar-músicas-da-Motown-na-campanha.

E funciona.

O problema nisso tudo, já diria Garrincha, é combinar com os russos.

A estrutura do Partido Democrata é pró-Hillary. A América rural, conservadora, mostrou que teme um candidato negro com chance de se eleger para a Casa Branca. E o provável candidato republicano, o senador John McCain, não atrai tanta antipatia quanto o atual presidente George W.Bush. Nada disso ajuda Obama.

Por isso, esta superterça histórica será um grande teste não apenas para Obama, mas também para uma sociedade que até algumas décadas atrás não se envergonhava de empurrar os negros para a traseira dos ônibus.

O maior exemplo disso é o fato de alguns republicanos e muitos democratas favoráveis a Hillary ressaltarem a pouca idade e experiência de Obama. Como se Bill Clinton não tivesse sido eleito com a mesma idade.

Aí está parte da diversão desta superterça. Quem vencerá no dia em que Obama despertou a América? Quem olha para a frente com mais idéias do que propostas? Ou aqueles que querem o negro na traseira do ônibus, e não ao volante?

Sendo os EUA o que são, eu não apostaria tanto na primeira possibilidade.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Saudades do Pacaembu

O Morumbi pode ser o mais forte candidato a receber o jogo de abertura da Copa do Mundo de 2014, mas nem a administração do estádio são-paulino nem Federação Paulista de Futebol (FPF) se mostraram aptos a organizar a inofensiva partida entre Corinthians x Mirassol pela sexta rodada do Paulistão, à qual tive o desprazer de comparecer.

Comprei ingressos pela manhã e estranhei de cara o fato de não haver entradas para a arquibancada vermelha, já que o fim de semana é mais de Carnaval do que de futebol. Já no Morumbi, com 32 graus na cabeça, era impossível não notar como o setor azul estava lotado, inclusive com pessoas sentadas nas passagens ainda a dez minutos do início jogo. Do outro lado, no setor vermelho, não havia quase ninguém.

E ainda continuava chegando gente no setor azul. Perto do início do jogo, havia empurra-empurra, discussões e gente passando mal, sob olhares pouco preocupados de alguns policiais. E tudo isso no setor azul, que estava claramente acima da capacidade ideal, enquanto o setor vermelho estava quase totalmente vazio!

Minha namorada foi uma das várias pessoas que passou mal por conta da confusão e por isso tentei, assim como outras pessoas, passar para o setor vermelho. Os policiais impediram. O jogo tinha acabado de começar e não tínhamos como assistir nada, nem no setor lotado nem no setor vazio. Tudo que os PMs diziam era para resolvermos com a federação e com a administração do estádio, porque eles não fariam nada que não fosse menosprezar aqueles que reclamavam. Não havia ninguém da federação por perto.

O número de queixosos cresceu, de dezenas para centenas, com gente de dentro do estádio e gente que chegava. Muitos com crianças, idosos e alguns com deficiência física. A partir daí –eram 30 minutos do primeiro tempo-- os PMs começaram a temer uma confusão. Um homem da tropa de choque resolveu contatar o comando da corporação para permitir a passagem dos torcedores. E isso só foi autorizado perto do fim da primeira etapa.

Milhares de pessoas passaram para o setor vermelho, muitas correndo para não perder ainda mais tempo de jogo, o que poderia ter causado mais problemas ainda, tamanha a desordem. Todas essas pessoas tinham ingressos para o setor azul, que mesmo assim continuou repleto de gente, quase sem assentos livres.

Essa foi uma clara violação do artigo 22 do Estatuto do Torcedor, segundo o qual é direito do torcedor ocupar o local correspondente ao número constante do ingresso. Sendo mais rígido, é possível criticar ainda mais aspectos, mas esse que citei é absolutamente ponto pacífico. E é ainda mais vergonhoso por ter acontecido em um evento tranqüilo como foi esse jogo, com apenas 17 mil torcedores presentes.

Um estádio e uma federação de futebol que esperam abrigar a estréia da seleção brasileira na Copa de 2014 não podem prestar um serviço tão ruim como esse. Consegui até ficar com saudades do Pacaembu.

Corinthians que não pensa

O Corinthians já não pensa. Não ri. E a torcida, que era o seu mais importante diferencial, é cada vez mais parecida com as outras.

Falta bom senso para dar paz ao clube após o maior trauma da sua história. Preferiram acomodar facções em troca de uma breve trégua em vez de fazer os expurgos necessários, como os do ex-presidente Alberto Dualibi, do ex-vice Nési Curi e da mafiosa MSI, vão andar de soslaio até que a pressão seja insuportável.

Mas essa pressão, quem diria?, não virá da torcida.

Se há algumas décadas ela ia para os estádios para ver a si mesma e cobrar os cartolas inaptos que mantiveram o clube na fila por 23 anos, hoje ela anda de mãos dadas com o presidente Andrés Sanches, que pouco crédito merece por seu histórico de alianças mal fadadas e nem sempre confessáveis.

Da maior comunidade corintiana no Orkut, passando pelas arquibancadas e pelo torcedor de botequim, a Fiel não é mais a mesma. Perdeu o humor e perdeu o juízo.

O maior símbolo disso é a torcida organizada Gaviões da Fiel, criada para fiscalizar o clube nos anos 1960 e hoje prestes a se tornar um braço uniformizado da diretoria "Kia II- A missão".

Uma torcida que tinha cara de movimento social há alguns anos, inclusive com proximidade com o Movimento Sem-Terra e outros descamisados do Brasil, agora é um anexo do poder--o que desonra a história de quem a criou e de tantos que a exaltaram.

Apenas a preferência clubística separa hoje a Gaviões da são-paulina Independente, que sabidamente depende da diretoria tricolor para conter as críticas e ver jogos da Libertadores no exterior. Ambas foram compradas por ninharia.

O que separa a Gaviões da Mancha Alviverde, cujo dirigente mais famoso se vê no direito de dar porrada em treinador mirim só porque o filho dele não joga no time titular? Ambas brigam por espaço, e não por transparência.

Nesse caldo todo só pode prevalescer a máxima de Millor Fernandes: a única coisa que não tem limite neste mundo é a burrice.

A participação do torcedor fica restrita, para os analfabetos funcionais de plantão, a comprar ou não comprar produtos do clube, ir ou não aos jogos, defender ou não o Corinthians das críticas da imprensa e dos rivais. E isso é muito, muito pouco.

Esse sectarismo estúpido cada vez mais forte na torcida corintiana está em descompasso com a história de um clube que atraiu faixas pela anistia aos exilados pela ditadura e foi palco da democracia corintiana --um fenômeno que não conheço igual e se houver algo parecido no futebol mundial, peço que me contem.

E o saldo da ausência da torcida na fiscalização, sabe-se, é negociatas aos borbotões, fanatismo em vez de paixão e, no futuro, derrocada. Uma inevitável derrocada por falta de inteligência.

Muito triste.

Por isso, quando falam da equipe atual do Corinthians, cujo meio-de-campo não funciona direito, me vem à cabeça a idéia de que um time também é reflexo da sua diretoria. Independentemente do treinador que o comande.

Afinal, é a diretoria do Corinthians que faz de tudo para se defender, mesmo que isso não traga nenhuma vitória. E é também a diretoria na qual ninguém usa a cabeça em vez da força para fazer a diferença em favor do clube.